"Se a barbárie encontra-se no próprio principio civilizatório, então pretender se opor a isso tem algo de desesperador". Essa é uma frase dita por Theodor Adorno, na página inicial de sua obra "Educação após Auchwitz". A obra leva esse nome por enfatizar a importância de uma sociedade educada, pois nessa sociedade não aconteceria ou repetiria-se as atrocidades e crimes do Holocausto, especificamente o genocídio no campo de concentração de Auschwitz.
A frase citada anteriormente faz referência ao princípio civilizatório. Esse refere-se aos fundamentos e valores de uma sociedade moderna, no contexto da educação ocidental. Inclui a racionalidade instrumental, que aborda a ênfase no controle racional, técnico e lógico, que utilizam a ciência como ferramenta de dominação e organização de uma sociedade; a crença de um avanço humano-tecnológico mensurado por um crescimento econômico e de conquistas científicas; o domínio e controle como ferramentas de exploração de recursos, a fim de alcançar patamares econômicos-políticos de seus interesses.
Tendo em vista esse conceito, basta analisar a forma na qual esse princípio relaciona-se com a barbárie. Em uma sociedade cujo princípio civilizatório inclui a barbárie, há motivos de sobra para desespero. Isso acontece pois, segundo Adorno, a barbárie não necessáriamente é externa à civilização. Ela pode emergir dos princípios civilizatórios, ou fundamentos, de uma sociedade que por ele é sustentada. Nessas sociedades, pessoas são consideradas números e tratadas como objetos. Um exemplo disso é a forma em que pessoas em Auschwitz eram numeradas de forma "eficiente" e "organizada" (a princípio).
Ao mencionar que, na pretensão da oposição, há algo de desesperador, ele expressa o quão difícil é combater um fundamento enraizado na estrutura de certa civilização. Isto é, a dificuldade de erradicar pensamentos geradores da barbárie, visto que já estão integrados em tais sociedades. Além disso, o sistema que perpetua a barbárie como princípio civilizatório, é resistente à mudança e extremamente poderosos. É necessario, portanto, uma oposição e transformação radical dos valores daquela civilização. Porém, isso requer esforços significativos.
De onde o sistema encontra forças e espaço para instalar a barbárie até que seja intrínseca ao fundamento de sua civilização? Para responder a essa pergunta, observa-se, na obra de adorno, a citação: "(...) a barbárie continuará existindo enquanto persistirem no que têm de fundamental as condições que geram esta regressão." É importante e essencial pontuar esse "quê", e em quais condições ele é implantado.
Existem muitos "quês". A ausência da educação, seja durante a primeira infância - pois todo o caráter humano é formado durante essa fase -, ou entre as esferas culturais-sociais que não permitem tais ações - ou seja criando um clima em que, deparados às consequências do horror, os cidadãos fiquem mais conscientes, ou sugerindo uma auto-reflexão crítica, visto que, quando presenciando grandes movimentos sociais, o ser humano tende a não tirar suas conclusões antes de seguir ao seu grupo de confiança.
O ambiente que permite a barbárie se torne um fundamento, é aquele que, além da ausência da educação, possui uma autoridade que se desintegrou, porém seu povo não era capaz de se autodeterminar. Meio a incapacidade de lidar com a liberdade e autonomia, já que a edudação falhou em lhes ensinar isso, eles aceitam qualquer autoridade, ainda que destrutiva, mas que antes não havia encontrado a oportunidade de revelar-se. Ademais, o retorno da barbárie, leia-se do facismo, se dá não apenas pela questão social, mas também psicológica.
Sociedades adoecidas carecem de vínculos de compromissos. Isto é, encontram prazer na submissão a autoridades negativas, contanto que possuam uma autoridade para obedecer. Adorno comenta que a perda de autoridade de uma sociedade é um prato cheio para que se instale a barbárie. A falta da educação, além disso, impede que ela veja a hipocrisia que lhe comanda. Porém, caso notada, é possível que isso se torne um passaporte moral, tanto para a identificação, quanto para o ressentimento.
"O único poder efetivo contra o princípio de Auschwitz seria a autonomia." Nessa passagem, Adorno conclui que compromissos externos, ou seja, normas impostas por autoridades, heteronomia, ausência de internalização (regras socias, normas morais ou ordens superioras) são perigosos, porque não levam à reflexão crítica - essa sendo a principal arma contra o facismo, contra o autoritarismo e contra a barbárie.
Confirmando a frase de Adorno, existem exemplos claros de demonstração da barbárie em estruturas sociais, ao longo dos últimos séculos e na sociedade contemporânea. Ainda hoje, ainda enfrenta-se desafios relacionados à barbárie. Aém de Auschwitz e o Holocausto com todos os seus crimes, há a opressão racial sistêmica, em forma de escravidão e colonialismo, sustentado pelas estruturas econômicas e culturais das sociedades que as fundamentam; e outro exemplo é a Primeira Guerra Mundial que, fundamentado em nacionalismos extremos e alianças militares, causou aproximadamente dezoito milhões de mortes com sua destruição em massa. A opressão racial advinda da escravidão reflete na sociedade contemporânea como racismo e violência. E os conflitos sociais, militares e culturais das Guerras mundiais, influenciam pensamentos extremistas em certos grupos socialmente privilegiados e nacionalistas.
Diversas experiências formativas podem ser pensadas, na atualidade, a fim de prever a barbárie de instaurar-se em seus princípios. Há a possibilidade de iniciativas educacionais focadas na conscientização de desigualdades sociais, com práticas e discursos inclusivos e decoloniais. A educação decolonial enquanto promotora da interseccionalidade, do acolhimento e conhecimento sobre as mais diversas culturas, com a prática do respeito, da preservação da autenticidade e pensamento crítico. Tais práticas se veêm necessárias desde a tenra infância até civis adultos. Podem incluir tecnologias de inteligência artificial, o auxílio de profissionais e epaços apropriados com práticas lúdicas. Pesquisas científicas e sociais e o incentivo do governo acerca de tais práticas. Que, além das escolas, possam ser incluidas em espaços terceirizados, programas integrados ao lazer e a cultura (Ex: músicas e atividades físicas) e com o apoio financeiro do governo aos orgãos educacionais públicos que realizariam tais práticas.
Em suma, a citação de adorno acerca da barbárie estar no princípio civilizatório de certa sociedade mostra que tem algo profundamente errado e que se assemelha ao irreversível, causando desespero. É profundamente necessário encontrar os espaços e circunstâncias propícios para a instalação da barbárie e lutar contra isso. A maior ferramenta contra a barbárie é o pensamento crítico, o qual só pode ser conseguido a partir da educação. Sendo assim, a educação é o oposto da barbáie, e a arma mais poderosa contra ela. É necessário a implementação de experiências formativas que sejam veículos para essa educação acontecer.