Eu não esperava que fosse gostar tanto do Gigante Esmeralda. Mano, essa HQ mexeu bastante comigo. Eu não esperava que o Bruce fosse tão traumatizado assim. E isso aqui não foi nem uma parcela do trauma que eu ainda tenho para descobrir em outras HQs, mas estou impressionado com o trabalho que o Tim Sale teve aqui.
Também fiquei impressionado com a forma e a linguagem que colocaram para o Hulk, já que ele sempre é tratado como um ser meio intocável, um monstro do qual você não pode se aproximar. E aqui você entende o porquê. A gente acompanha um Hulk tentando se isolar o tempo todo, dizendo que odeia tudo e que quer ficar sozinho e ele repete muito isso.
Também existe um paralelo muito interessante entre o Bruce e o Hulk. De um lado, temos o Hulk cruel, uma criatura agressiva demais, mas que no fundo é apenas um ser que quer proteger o que é importante para ele, beirando até o infantil.
Do outro lado, temos o Banner, que é um cara completamente blindado emocionalmente. Eu nunca imaginei que ele fosse ser tão seco assim nas HQs, pelo menos nessa primeira que estou lendo. Ele é frio, distante. E vê-lo com aquele cinismo, falando do Hulk como se ele fosse o problema de tudo, até mesmo para Leonard, o terapeuta, para não perdoar o Hulk pelas coisas que fazia, mostra como ele sempre nega que os dois são a mesma pessoa. Como se fossem entidades separadas.
Mas é curioso porque, na mesma HQ, logo no primeiro capítulo, ele fala que o Hulk é uma extensão dele. Não é algo de fora, é algo que sempre esteve dentro dele.
O que eu achei muito interessante também é o final, onde temos tanto a visão do Hulk quanto a visão do Bruce. O Hulk fala que ele não machuca a Betty, mas que a Betty tem medo dele. Enquanto isso, Ross machuca a Betty com sua maneira agressiva, rígida e controladora, e mesmo assim ela o ama e não quer que ele morra. O Hulk não consegue entender esse amor.
E quando voltamos para o Banner, um cara com um cérebro absurdo, acontece exatamente a mesma coisa. Ele tem inteligência de gênio para estudar, criar e compreender inúmeras coisas, mas não consegue entender o amor. E isso é justamente o que o deixa estressado
Ross e ele não são tão diferentes assim, Betty ainda o ama. Da mesma forma que ela olha para o Hulk como um ser agressivo, cruel e imperdoável, mas ao mesmo tempo encontra conforto nele. Ela consegue encontrar o Banner dentro do Hulk. Mas ele não consegue aceitar que pode ser amado apesar de suas imperfeições, de sua dor e de seus traumas.
Essa HQ realmente abriu meus olhos e meu coração para o personagem do Hulk. Eu não esperava que o Gigante Esmeralda fosse me tocar tanto. E agora quero muito continuar lendo outras HQs dele para conhecer ainda mais o personagem.
Falando também um pouco sobre a forma como a HQ conta sua história, achei genial ela ser estruturada como uma sessão de terapia. São apenas seis capítulos e isso funciona muito bem na narrativa. Tanto que o próprio Leonard comenta perto do final que eles precisam correr porque o tempo da sessão está acabando (e eles podem ser encontrados).
E essa é exatamente a sensação que a HQ transmite. Você sente que aquilo é uma terapia, não uma história de origem. Ela foi feita para ser algo íntimo, uma abertura emocional do personagem, algo que ele nunca contou e nunca deixou as ninguém saber.
A forma como Bruce conta a história também é interessante. As cores utilizadas, a coloração e a escuridão presentes nas páginas fazem parecer que estamos vendo uma representação visual da mente dele.
Ele também fala sobre Ross de uma forma que pode ser vista como exagerada. Tanto que o próprio Leonard questiona alguns pontos, sem nem mesmo usar palavras acusatórias. E imediatamente Bruce responde na defensiva, como se estivesse ouvindo uma acusação que nem foi feita.
Ele diz: "Então você está dizendo que estou exagerando a história para fazer Ross parecer um vilão?"
Sendo que Leonard não falou isso. Apenas sugeriu uma possibilidade. Isso faz você perceber como a construção dessa história é cuidadosa.
Também existe algo muito interessante na linguagem visual.
Em alguns momentos o Hulk é desenhado como um monstro desproporcional, agressivo, quase impossível de definir. Parece até mal desenhado de propósito, com proporções irreais, para transmitir a sensação de algo que desafia qualquer padrão humano.
Mas, em outros momentos... ele parece uma criança.
Em uma imagem ele aparece com dentes tortos, quase demoníaco. Em outra, parece assustado, coberto por sombras, recluso. Uma criatura que só quer se esconder em um canto e ficar sozinha porque já ouviu coisas demais durante a infância.
Sinceramente, não tenho muito mais o que dizer sobre essa HQ. Só de escrever isso aqui já estou ficando emocionado de novo, com vontade de chorar mais uma vez.
Eu nunca imaginei que um personagem que eu sempre enxerguei apenas como agressivo, destrutivo e violento pudesse me tocar tanto.
Nunca imaginei que justamente esse personagem seria alguém com quem eu me identificaria. Um personagem que é, no fundo, apenas a manifestação de toda a dor e repressão que carregou por tanto tempo.
E talvez o que mais define o Hulk para mim seja justamente a frase que ele mais repete durante essa HQ:
"O Hulk não é monstro! Hulk só quer ficar sozinho..."
E eu não conseguiria terminar essa review de outra forma.