O cronista é um escritor consciente de sua responsabilidade com a memória. Tendo vivido com intensidade outras experiências de tempo, ele dá o seu testemunho ficcional e literário. Escrevemos crônicas principalmente para acrescentar aos dias de hoje o que ficou retido em nosso passado pessoal. Entre todas estas realidades perdidas, figura como algo comum a um grande número de pessoas a valiosa experiência rural, ou apenas interiorana. Até algumas décadas atrás, a vida periférica mantinha características próprias. Com a integração do planeta pela comunicação e pelo consumo, estas outras formas de ser podem desaparecer completamente. Daí a importância da crônica. Por meio de um verbo enraizado no chão da memória, o cronista tenta eternizar o que já não existe na realidade. Mas ele é um ser em conflito. Vive o presente, sua atual pátria, sem se desligar do passado, país estrangeiro para onde sempre viaja em deslocamentos rápidos. Homem de dois mundos, de dois tempos, o cronista cultiva sua antiga lavoura num jardim de cimento.


