De um tempo para cá não tenho sido muito feliz com minhas leituras e digo isso com muito pesar porque é muito ruim você ter que insistir numa leitura enfadonha. Bem, foi exatamente isso que aconteceu durante a leitura de A Ideia. Foi um dilema escrever a respeito. Terminei de lê-lo faz um tempo, mas simplesmente não conseguia dissertar nada relevante. Quando a leitura é prazerosa isso se torna fácil e ocorre naturalmente. Quando ocorre o contrário, isso é bem mais delicado porque é preciso concatenar as ideias e tentar ser o mais objetivo possível.
Primeiramente vamos falar a respeito da personagem principal: Beatrice Dumont. Bia tem 23 anos, cursa Letras, é muito estudiosa e nutre sonhos como qualquer outro jovem da sua idade. Ela perdera seus pais ainda criança e por esse motivo dividia o apartamento com sua tia Vera. O relacionamento das duas era muito esquisito. Parecia duas estranhas dividindo o mesmo espaço. Bia trabalhava como monitora na universidade onde estudava. Quando não estava estudando em casa ou na universidade, passava o tempo todo todo dormindo. Ela não tinha uma vida muito interessante. E quando o assunto era relacionamento as coisas eram ainda piores.
Bia é uma garota muito chata. Pense em alguém chato! Pensou? Eleve ao cubo! É isso mesmo. A personagem passa o livro inteiro reclamando da vida e no momento seguinte, ela entre em contradição dizendo que ela é uma pessoa que corre atrás de seus objetivos. Definitivamente, não convence.
Lembram-se da fala da hiena Hardy:
“_Oh céus! Oh Vida! Oh Azar! Isto Não Vai Dar Certo!"
É exatamente assim que Bia se enquadra. Ela passa o tempo todo se lamentando, indagando a vida, que tudo é injusto, que ela é uma pessoa infeliz e tem uma vida muito triste. E vocês querem saber o motivo de tanta autocompaixão e desânimo? Bia não é amada! Ela deseja encontrar alguém que a ame de verdade. Imagine alguém descrevendo o seu descontentamento em relação à vida durante 421 páginas. Que dureza! Infelizmente, a história não justifica o tamanho do livro. Eu o reduziria pela metade sendo muito otimista.
O livro não correspondeu minhas expectativas. Cheguei a nutrir boas expectativas por vários motivos. Primeiramente por considerar um ato de bravura do autor Lucas Chagas que escreveu um romance no qual ele narrava a história pela voz de Bia. Histórias narradas em 1ª pessoa sempre me atraem por me aproximarem da realidade do personagem. Mas nesse caso nunca desejei tanto que uma história fosse narrada em 3ª pessoa. Bia é muito insegura, chata e infantil. Meu Deus! A salvação de Bia era ter alguém como Brenda ao seu lado. Sua melhor amiga foi a salvação da narrativa, assim como a existência dos demais personagens secundários que fizeram parte da história. Os amigos de Bia tornavam o livro bem mais agradável.
Bia nutre um romance platônico por Benjamim, um carinha que ela conhece no bar onde costuma frequentar com os amigos para jogar bilhar. Quem já não viveu um romance platônico, não é mesmo? Mas como no caso de Bia tudo é extremamente chato, esse amor torna-se a coisa mais insuportável do mundo. E como não poderia ser diferente Ben é tão chato quanto Bia. Um jovem sem sal, inexpressivo, inseguro. O autor até tentou transmitir a ideia de um personagem interessante com jeito enigmático, mas não conseguiu. Ao conhecê-lo Bia perde completamente o prumo. Daí por diante, a vida de Bia não será a mesma. Uma simples atitude pode colocar tudo a perder. Muitos desencontros, decepções e coisas do tipo acontecerão com o casal.
A leitura não flui e se arrasta até os confins do universo. E no último capítulo, um suspense faz com que a narrativa mereça 5 segundos de atenção. E só. Sem emoção e sem expressão, A Ideia termina sem acrescentar nada. Fiquei a pensar sobre o título do livro. Em certos momentos cheguei a compreendê-lo, mas ao chegar ao fim do livro percebi que a essência do livro o explica. Mas para absorvê-lo é preciso atenção e muita persistência. A história é permeada de pensamentos filosóficos e isso a torna ainda mais cansativa.
O mais intrigante é que logo no início do livro, o autor desperta até a nossa atenção. Ele nos convida a refletir sobre nossas escolhas, sobre o amor e a importância dele em nossas vidas. Brinca com a questão: “Perceberá, em alguns instantes ( ou quem sabe em alguns dias, se não se cansar e fechar o livro), que a história será narrada na voz dela.” Diz que provavelmente acharíamos um pouco estranho. Mas isso não é o problema. O que realmente torna a narrativa cansativa são as colocações redundantes da personagem principal. O romance propriamente dito entre os personagens principais torna-se um ponto fraco. O que deveria ser uma linda história de amor, de crescimento por parte da personagem feminina torna-se uma história chata, sem emoção alguma. A única coisa que dá para se tirar proveito durante toda a narrativa são as citações musicais como: Djavan, Legião Urbana, Cássia Eller, entre outras.
Insisti no livro por acreditar na mensagem central do livro. Compreendo que devemos aproveitar cada momento de nossas vidas, que o amor é o que move o mundo. É o que realmente nos completa e coisas do tipo. Mas o que não me agradou foi a maneira como a história foi desenvolvida.
A diagramação do livro é simples e a capa do livro é bem legal. A escrita do autor é consideravelmente boa. Encontrei pouquíssimos erros. Alguns vícios de linguagem incomodaram um pouco, como alguns pleonasmos. Mas em alguns momentos conclui que o autor o utilizara para dar expressividade à oração; já que tal recurso é aceitável no âmbito literário. O que realmente deixa a desejar são o desenvolvimento e a construção da narrativa.
Espero que sintam-se tocados de alguma maneira porque da minha parte não rolou. Para quem curte romances leves pode ser uma boa pedida.