Como já havia ficado claro com a leitura dos contos de fadas com twist de empoderamento feminino que Angela Carter formulou, ela é uma mulher muito inteligente e sua perspicácia fica ainda mais evidente quando se trata de teoria literária. Pudera eu ser tão sagaz quanto ela.
Carter faz uma bela introdução explicando que apesar da misantropia sadeana, Sade realizava uma sátira sobre as relações entre homens e mulheres e o tipo de pornografia que executava dava poder às mulheres porque não era o tipo de submissão ao status quo presente em livros como Fanny Hill, tanto que Sade entendia mais do poder do clítoris do que Freud cem anos depois.
No segundo capítulo Carter analisa Justine e o quanto está em confluência com a mulher ideal erigida pelo patriarcado, em parte do capítulo a autora faz um paralelo entra a mulher masoquista Sadeana representada por Justine e o ideal de mulher que convencionou-se no cinema com ênfase específica no mito de Marilyn Monroe que representaria a Justine definitiva do século XX.
No terceiro capítulo a autora discorre sobre Juliette, a antítese de Justine, de como ela é a negação da mulher erigida pelo patriarcado, de como ela se perpetua como a supermulher nietzscheana no ápice do próprio poder.
O quarto capítulo se refere à Filosofia na Alcova em que a autora analisa veementemente a questão edipiana do estupro da mãe pela filha Eugenie, além de usar a teoria kleiniana da inveja e gratidão, seio bom/mau para explicar as relações entre mãe e filha.
Carter encerra o livro alinhavando que os libertinos sadeanos seriam tão perversos polimorfos quanto as crianças na teoria freudiana, além de um pequeno posfácio com um trecho da escrita de Emma Goldman.