Seria possível ter Lisbeth como nossa guia em um mundo pós-gênero? Lisbeth e Mikael podem ser eles próprios criminosos para pegar um criminoso? Aristóteles leria um livro de mistério de Larsson em uma praia? A vingança pode ser ética? Por que se toma tanto café? Ao traçar uma linha moral tênue entre suas próprias ações e os esquemas criminosos que eles plantam para desvendar crimes, no best-seller internacional Trilogia Millennium, Lisbeth Salander, uma problemática hacker de computadores tatuada, e Mikael Blomkvist, um jornalista desonrado de meia-idade, formam a parceria mais improvável de heróis na história da ficção popular, e uma das mais convincentes. Com base em algumas das mentes filosóficas mais brilhantes da história, A Garota com Tatuagem de Dragão e a Filosofia oferece uma nova visão da complexa estrutura ética desse estranho casal de detetives e dos principais temas epistemológicos que conduzem os contos de crime e corrupção no lado sombrio da Suécia, engenhosamente arquitetados por Stieg Larsson. Os tópicos, tais como os argumentos aristotélicos em relação a por que amamos a vingança, teorias kantianas para explicar por que tantas mulheres dormem com Mikael Blomkvist, leitura feministas de Lisbeth Salander e pontos de vista de Larsson sobre o ceticismo, oferecem uma dose enorme de porções metafísicas que irão mais do que satisfazer o apetite intelectual dos fãs devotos de Larsson de todas as partes do mundo.
A Garota com Tatuagem de Dragão e a Filosofia - Tudo é Fogo
Eric Bronson, William Irwin
A Rainha do Castelo Filosófico
“A Garota com Tatuagem de Dragão e a Filosofia” é um volume da coleção de livros idealizada por William Irwin acerca da filosofia presente em diversas obras e áreas da cultura pop – cinema, literatura, TV, música, etc. No Brasil, a maioria dessas obras foi publicada pela editora Madras (e algumas pela Best Seller). Este volume, como qualquer leitor de Stieg Larsson deduz facilmente pelo título, dedica-se a analisar do ponto de vista filosófico a Trilogia Millenium, com particular destaque à “garota tatuada” em questão, Lisbeth Salander, protagonista dos livros. Como os demais livros da coleção, este é organizado em blocos temáticos, ou partes, que, por sua vez, dividem-se em capítulos compostos por ensaios de vários autores. Este livro, especificamente, é formado por cinco partes que exploram desde a natureza dos personagens da trilogia até o contexto histórico-político no qual a trama se desenvolve. Um ponto muito interessante aqui é que cada parte é introduzida por um mapa da Suécia destacando locais relevantes da história e dos temas que serão tratados. A primeira parte, “Lisbeth ‘Idiota’ Salander” dedica-se a explorar a famosa hacker que se tornou uma das personagens femininas mais emblemáticas da literatura popular contemporânea. Nesta parte, composta de três capítulos/ensaios, os autores dissertam sobre a identidade e os estigmas em torno de Lisbeth, sua dissonância com o sistema educacional no qual fracassou e, por fim, é feita uma leitura da complexa sexualidade LGBT na qual a personagem eventualmente se encaixa conforme as circunstâncias. A segunda parte, “Mikael ‘Bonzinho’ Blomkvist” analisa o parceiro de investigações de Lisbeth, o jornalista e coproprietário da revista Millenium, referência no quesito denúncias de corrupção e outras falcatruas orquestradas nos bastidores suecos. Esta parte procura explicar o “sucesso” de Blomkvist com as mulheres, sua fixação por café (historicamente contextualizada com exemplos da importância intelectual dessa bebida) e sua competência jornalística em um mundo onde a política e o poder burlam as leis frequentemente e onde o crime se tornou atração midiática. A terceira parte, “Stieg Larsson, homem de mistério”, investiga o autor da trilogia, seu engajamento na luta contra organizações fascistas e seu repúdio ao antissemitismo e à pseudociência. Também discute a posição de seus livros em relação aos rótulos de literatura e ficção popular; por fim, questiona o apelo sexual de que a violência retratada (e denunciada) pelo autor é revestida. A quarta parte, “Todo mundo tem segredos”, concentra-se em um dos aspectos centrais da obra de Larsson: informação; assim, nesta parte o universo hacker é analisado – inclusive com um paralelo com o Wikileaks – e discute-se o direito ao acesso a determinadas informações, bem como invasão de privacidade. Essa parte também fala sobre o papel das instituições sociais e seu desvio das funções de ordem e justiça para as quais foram criadas, tornando-se corruptas e opressoras. A quinta e última parte, “Uma vingança de 75 mil volts não pode estar errada, pode?”, destaca outro ponto-chave daTrilogia Millenium: vingança. Aqui os autores retomam e aprofundam um tema parcialmente citado na terceira parte: o apelo catártico, que é basicamente a satisfação advinda da vingança em determinadas circunstâncias. Aqui há a distinção entre vingança e punição, uma discussão sobre livre-arbítrio, responsabilidade, ética e dever, inclusive no que se refere a mentiras. Apesar de ser curto, “A Garota com Tatuagem de Dragão e a Filosofia” é um livro riquíssimo para os amantes das obras de Larsson, sendo que sua leitura é recomendada para quem já leu os três livros, pois evidentemente é repleto de spoilers à guisa de exemplos filosóficos. Gostei imensamente deste livro e o único fator que me impede de dar a ele nota máxima foi o desleixo da Madras no quesito revisão da tradução: aqui e ali se encontram erros de digitação e ortografia, como letras trocadas ou faltando, erros de gênero e até descuidos menos justificáveis (como num determinado momento se referir ao último livro da trilogia como “A Rainha do Castelo de Gelo”). A tradutora Ana Verbena (grave bem esse nome!) merece um puxão de orelha, mas, afora isso, é uma leitura que vale cada página.
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