Minha alma é noturna e a culpa é toda do Júlio César Machado.
Parece que o curador da nossa coleção finalmente se deu conta de que precisávamos de férias do Clube dos Maridos Traídos e das cansativas narrativas naturalistas. Depois do susto maravilhoso de Guimarães Júnior, continuamos no território dos contos, mas agora sob uma luz diferente: a de Júlio César Machado. Se antes estávamos lidando com o sobrenatural brasileiro, agora o clima é de romance, melancolia e noites enluaradas. É um alívio ver que, pelo menos por enquanto, a temática de esposas que fogem com o hóspede deu lugar a uma sensibilidade mais poética e menos dedo na ferida social. Depois do detox sobrenatural de Guimarães Júnior, confesso que já não esperava mais encontrar um "Pedro" ou um "Fernando" em cada esquina. Contos ao Luar chegou como aquela brisa de fim de tarde que a gente recebe depois de passar um dia inteiro trancada em uma sala abafada. O curador da coleção parece estar em uma fase "noturna": primeiro os fantasmas, agora o luar. É quase como se ele estivesse tentando curar o trauma dos adultérios com um pouco de poesia e mistério romântico. Sinceramente? Eu aceito o suborno literário com prazer, pois nada é pior do que a mediocridade de um marido abusivo que se acha o máximo. O livro é uma tapeçaria de narrativas curtas onde o cenário principal é sempre a noite e seus efeitos sobre a alma humana. Júlio César Machado nos apresenta personagens que vivem amores idealizados, sofrimentos poéticos e encontros fugazes. Diferente da crueza do naturalismo, aqui a "doença" não é biológica ou moral, mas sentimental: é a saudade e a idealização. As histórias giram em torno de corações que batem por figuras muitas vezes inacessíveis, sob o brilho da lua que parece testemunhar segredos que a luz do sol jamais suportaria. É um enredo de nuances, de sombras e de uma delicadeza que os maridos "betas" dos livros anteriores jamais entenderiam. A obra se divide em relatos que viajam para Portugal, trazendo títulos como "Os noivos", que abre o apetite para o romance, e o curioso "Pedrinho". Passamos por tons mais sombrios e quase satíricos em "Uma receita do Roberto do Diabo", mergulhamos no drama clássico de "Salvador e Madalena" e observamos a vida doméstica em "O casal". O autor ainda nos leva para as cores e a fé de "As festas de Nazaré", no Pará, e cruza o oceano novamente para nos mostrar a melancolia litorânea em "Os dois pescadores de Lessa da Palmeira". É uma reunião diversa, que mostra que a vida, e a literatura, tem muito mais a oferecer do que apenas chifres e disputas por hóspedes talaricos. Dentre todos esses relatos, o meu preferido foi, sem dúvidas, "Salvador e Madalena". A escolha se deve à força da tragédia romântica que não precisa de "vilões" caricatos para acontecer; ela nasce da própria fatalidade do sentimento. E a personagem que mais me fez brilhar os olhos, e com quem me identifiquei pela resiliência emocional, foi a própria Madalena. Ela é o oposto das "bonecas de luzinhas" que vimos nos livros passados. Madalena tem uma dignidade no sofrimento, uma alma que transborda uma melancolia que não é fruto de tédio burguês, mas de uma profundidade real. Ela não espera que um homem a "acenda" ou a "apague"; ela brilha por si mesma, mesmo que seja sob a luz prateada e triste do luar. É fascinante comparar o sentido de honra aqui com o que vimos anteriormente. Em O Marido da Adúltera, a honra era um peso que levava ao suicídio patético; aqui, a honra se mistura com a fidelidade aos próprios sentimentos. É muito interessante ler sobre essa perspectiva da dor que não nasce de um chifre, mas de um amor que simplesmente não pode ser. O português é belíssimo, romântico no sentido mais puro da palavra, e o olhar do homem aqui é o do apaixonado melancólico, não o do misógino inseguro. Estamos em um mundo onde a traição não é o motor, mas sim o desencontro. É quase um contraponto ao "sertanejo" da dor normalizada: aqui a dor é sagrada, é única, é uma obra de arte noturna. O desfecho de muitos desses contos carrega o peso da tragédia romântica. Não espere finais felizes com casais tomando café da manhã; espere pela conclusão lógica da melancolia: o adeus, o túmulo coberto de flores ou a lembrança que nunca morre. A escolha do fim aqui não parece uma fuga covarde, mas uma aceitação do destino. É um final trágico que, ao contrário do suicídio por desonra burguesa que lemos antes, tem uma certa beleza estética, uma aura de morrer por amor que, embora extrema, é muito mais palatável do que morrer por gaslighting e tédio. Acredito que a classificação indicativa seria para maiores de 14 anos. O motivo é a carga emocional pesada e os temas de morte e melancolia profunda. Não há a toxicidade do abuso doméstico ou a violência da traição vil, mas o clima de "morbidez romântica" exige um leitor que consiga apreciar o lado mais sombrio dos sentimentos sem se deixar abater pela tristeza absoluta que permeia as páginas. Termino dizendo que foi uma leitura maravilhosa, justamente por ser o oposto da soberba medíocre que vinha enfrentando. Contos ao Luar sabe que é uma obra de sentimentos pequenos e íntimos, e por não tentar ser um "tratado sobre a sociedade", acaba sendo muito mais profundo. Foi um descanso necessário e, sinceramente, espero que o próximo livro mantenha essa dignidade, longe dos maridos que tanto nos irritaram.


