Café Amargo -

    José Carlos Tortima

    Oito e Meio
    2012
    238 páginas
    7h 56m
    ISBN-13: 9788563883193
    Português Brasileiro

    Estreia na ficção do advogado José Carlos Tortima, Café Amargo narra o romance entre o jovem médico Eurico Torelli e a atriz de Teatro de Revista, Aidê Provenzano. Ambientado no final dos anos 30 e início dos 40, durante a ditadura do Estado Novo, o romance conta a perseguição sofrida pelo jovem médico por parte de Vargas que, apaixonado pela bela atriz, queria tirar o outro do caminho. Misturando personagens reais - como o próprio presidente Getúlio Vargas, o chefe da polícia política Filinto Müller e o ministro Oswaldo Aranha - com personagens ficcionais inesquecíveis, Tortima constrói uma narrativa viva e intrigante, que lembra os melhores romances de Rubem Fonseca.

    Resenhas (1)Ver mais
    Ladyce West picture
    Ladyce West04/02/2013Resenhou um livro
    3 (Bom)

    História contada ou romance histórico?

    Geralmente quando dou três estrelas a um romance, não escrevo uma resenha sobre ele. Três estrelas de cinco, significa médio: é o caso do meio cheio, meio vazio, ou seja, vai depender do leitor. Esta leitora pode não ter visto o que outros verão. Em geral, eu me abstenho da resenha, por não querer melindrar e por achar que talvez a falta de empatia com o autor da narrativa seja só minha. Mas o livro “Café Amargo”, de José Carlos Tortima sugeriu tantas questões a respeito do que é um romance histórico, que gostaria de reabrir um debate iniciado há dois anos, no blog, sobre literatura que tem embutida um objetivo, uma mensagem de cunho político, religioso, ou outro, em oposição à que se apresenta sobretudo como uma boa história. Poucos são os escritores que conseguem fazer com a primeira um bom produto. A intenção da mensagem acaba comprometendo o resultado. Isso me leva a considerar a diferença entre o contador de causos e o romancista. Há escritores como José Carlos Tortima que são excelentes contadores de causos. Eles têm a habilidade de fazer um apanhado das etapas relevantes de um acontecimento histórico ou anedótico e engatá-las numa corrente que nos mostra como uma época ou um evento se desenrolou. É nessa categoria que vejo a maior parte dos escritores de romances históricos brasileiros. No caso específico de “Café Amargo” o romance pertence à primeira categoria, à narrativa de causos com um objetivo: mostrar como se vivia na época da ditadura de Getúlio Vargas; revelar, para quem ainda não conhecia, os meios de ação da polícia de Filinto Müller; lembrar como a política era personalizada e trazer à baila a conhecida obsessão de Vargas pela vedete Virginia Lane [aqui dignamente escondida sob pseudônimo]. Ficam claras, ao longo da história, as conseqüências colhidas por aqueles que contrariavam os desejos do ditador. É uma época riquíssima de mandos e desmandos, um período complexo da história brasileira, com muitos causos para serem contados e tecidos em romance. Pouco explorada pelos escritores, talvez porque nem todos queiram relembrar ou trazer à tona os desmandos dessa ditadura este parece ser o momento perfeito para se retirar os véus de um regime que é visto até hoje com dubiedade, por se apresentar também como “protetor do trabalhador”. Essa “boa-vontade” brasileira com o poder autoritário encontra abrigo no silêncio de escritores e intelectuais que frequentemente simpatizam com a militância de esquerda, que insiste em fechar os olhos aos desmandos da era Vargas. Sou grande apreciadora de romances históricos, de época. São um meio maravilhoso de nos apossarmos da pesquisa dos outros, de absorvê-la e com ela colorir os nossos conhecimentos de história. Vemos o passado pelos olhos do escritor que o estudou, que se dedicou a levantar dados. E nos enriquecemos. O que vejo em “Café Amargo” e, deixe-me deixar claro em muitos romances históricos brasileiros, é uma maneira de ver os eventos e personagens da História como centro da narrativa. Como se os eventos por si só bastassem, fossem de interesse. O resultado prejudica o desenvolvimento de uma trama mais densa, de maior peso. Essa atenção ao evento histórico simplifica os personagens, tornando-os tão leves quanto papel. Mesmo nesse romance, onde abundam detalhes periféricos, detalhes precisos, endereços, números de linhas de transportes públicos, esquinas do centro da cidade, até novelas de rádio mais populares, o ambiente criado não é suficiente para dar densidade, força ao romance. Esses detalhes não criam um ambiente que os personagens habitem com credibilidade, que ajam com suas características únicas. Falta-lhes tridimensionalidade, emoções que nos seduzam. A leitura é fria. Não me importei com o que iria acontecer, mas segui em frente, porque a prosa é boa, flui. Mas não cativa. Era como ouvir uma história num fim de tarde, o que aconteceu com meu amigo na rua, no ônibus. O relato de um evento. Faltaram tramas, subtramas, intrigas, emoções escondidas e outra desvendadas pelas ações dos personagens. Faltou conspiração. Onde estão os personagens feitos de carne e osso, com defeitos e qualidades, com emoções e desconexões? Faltou vida. Não quero desencorajar o escritor. Muito pelo contrário. Gostaria de ver o romance histórico no Brasil mais comum e mais sofisticado. A leitura de romances históricos de outras terras nos dá algumas dicas. Criar um personagem menor que testemunhe os eventos é uma das soluções encontradas por Bernard Cornwell, por exemplo com Richard Sharp,soldado inglês nas guerras napoleônicas. Philippa Gregory no livro “Earthly Joys” [infelizmente não traduzido para o português] concentra sua atenção num personagem histórico de menor importância, um jardineiro, John Tradescant, viajante, um homem comum, com quem os leitores conseguem se identificar, que agindo dentro da sua limitada esfera de influência, nos oferece uma rica visão da Inglaterra do século XVII. Arnau Estanyol também é um personagem fictício que nos ensina sobre a dura realidade da vida em Barcelona da Idade Média, na época da construção da “Catedral do Mar”. Ele foi criado por Ildefonso Falcones, que assim como José Carlos Tortima deixou a vida de advogado para a de romancista. Existem inúmeros exemplos de densidade de trama em romances históricos, onde personagens fictícios conseguem nos seduzir e nos fazer entender os porquês de certos acontecimentos. Acredito que José Carlos Tortima, com sua extensa experiência de advogado criminalista, esteja corretíssimo nos detalhes de tudo que relata no romance. E isso já é mais do que meio caminho andado. Agora, gostaria de vê-lo desenvolver o que aprendeu nas cortes brasileiras sobre as vicissitudes humanas e explorar essas emoções para nos presentear com um ou mais romances históricos do calibre que merecemos ter.

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