Jim Nashe é um frívolo bombeiro de Boston que precisa de música como do ar que respira. A mulher abandona-o pouco antes da morte de seu pai, que nunca conheceu e que lhe deixa uma inesperada herança, que ele esbanja à medida que viaja sem rumo pelos Estados Unidos. Sem que estabeleça qualquer ponto de chegada, Jim deixa-se conduzir pelo acaso, que se torna a força motriz que determina a sua vida, transformando-a numa sucessão de acontecimentos aparentemente sem significado. Uma vida errante passada numa solidão quase completa, em que experimenta a divertida e dilacerante sedução do desenraizamento absoluto. Até ao dia em que a música do acaso lhe sugere uma outra aventura: apostar tudo numa única carta... Metáfora de como é fácil perder a identidade e de quão inexplicáveis são as regras que regulam as nossas vidas, A Música do Acaso é um romance sobre liberdade e destino. Um universo bizarro onde a realidade se transforma e um simples jogo muda irremediavelmente as vidas dos jogadores que nele participam. Obsessão, melancolia e o lado mais negro da natureza humana – alguns dos temas mais caros ao autor – estão todos aqui, neste romance emblemático do trabalho literário de Paul Auster.
A música do acaso -
Paul Auster
Edições (2)
Ver maisENTRE O ACASO E A SINCRONICIDADE, NASCE UMA MÚSICA PLENA DE SENTIDO
Dando continuidade a uma tradição iniciada com Milan Kundera, no dia da notícia da morte de Paul Auster (30/04/2024) comecei a ler A Música do Acaso. E assim fui presenteado com uma história interessantíssima e desafiadora, contada com muito talento e habilidade. Acabei decidindo não fazer a sinopse ou qualquer outra referência a essa história. Primeiro, por se tratar de um exercício de inutilidade, pois Auster realmente entrega o que promete no título, uma música do acaso, uma sucessão de acontecimentos aparentemente aleatórios e desconectados. Em segundo lugar, e principalmente, acho que contar qualquer trecho dessa história significa cometer spoiler. Pois é impressionante como Auster consegue criar suspense a partir de uma trama tão desconjuntada. O leitor é capturado pela leitura, tal como um viciado em jogo fica hipnotizado pelo giro da roleta. Posso dizer, contudo, que jogo e sorte têm tudo a ver com a música do acaso. Percebi uma espécie de síntese da obra na dialética gerada entre os dois personagens principais. De um lado temos a intuição temperamental de Jack Pozzi, o jogador profissional apelidado Jackpot: Quando a sorte vem vindo para nós, não há nada que a faça parar. É como se o mundo inteiro se encaixasse no lugar certo. Ficamos como que fora do corpo e passamos o resto da noite vendo acontecer milagres. Já nada tem a ver conosco. É algo fora do nosso controle e, desde que não pensemos muito nisso, nada pode dar errado. Do outro, temos o desesperançado ceticismo do protagonista Jim Nashe: Você quer acreditar em algum propósito oculto. Está tentando se convencer de que há razão para o que acontece no mundo. Não importa o nome que você dê a isso: Deus, sorte, harmonia. É tudo a mesma bobagem. É um modo de não encarar os fatos, recusar-se a ver as coisas como elas são. Essa dialética, ao meu ver, é o que confere beleza e encanto ao livro, ao instigar no leitor as velhas e profundas reflexões: A vida tem sentido? É possível encontrar valor e significado mesmo naquilo que parece sem sentido? Em uma obra anterior de Paul Auster que tive a oportunidade de ler, o autobiográfico O Inventor da Solidão (https://comunidaderesenhasliterarias.blogspot.com/2013/03/o-inventor-da-solidao-paul-auster.html), incomodou-me o constante assombro do autor com o que ele chamava de acaso, simplesmente por se recusar a ver ali a sincronicidade. Fiquei feliz ao ver que em A Música do Acaso (publicado em 1990, oito anos depois de O Inventor da Solidão), Auster soube converter suas inquietações em uma bela e instigante canção. Uma vez que estamos falando de um tema tão caro ao meu coração, acaso X sincronicidade, preciso registrar que vivenciei duas sincronicidades marcantes lendo esse livro. Eu estava lendo paralelamente o primeiro volume dedicado a Rousseau na Coleção Os Pensadores, quando me deparei com essa curiosa referência em A Música do Acaso: Às dez e meia, desligou a televisão e deitou-se com um exemplar de bolso das Confissões de Rousseau, que começara a ler durante a permanência em Saratoga. Pouco antes de dormir, chegou à passagem em que o autor está numa floresta, atirando pedras às árvores. Se eu acertar aquela árvore, diz Rousseau consigo mesmo, tudo dará certo na minha vida daqui por diante. Ele atira a pedra e erra. Essa não contava, ele diz. Então pega outra pedra e avança vários metros na direção da árvore. Erra de novo. Essa também não contava, ele diz. Rousseau se aproxima ainda mais da árvore e pega outra pedra ainda. Novamente erra. Esse era o último arremesso de aquecimento, diz ele, é a próxima que vai valer. Dessa vez, para ter certeza, ele vai até a árvore e se coloca bem diante do alvo. Pode até tocar o tronco, se estender o braço. Atira então a pedra. Sucesso, diz consigo mesmo. Consegui. A partir de agora, minha vida será melhor que nunca. Embora tivesse achado divertida a passagem, Nashe fica encabulado. Havia algo de terrível nessa franqueza. Onde Rousseau teria encontrado coragem para tal revelação, para expor tão abertamente que enganava a si próprio? A outra sincronicidade foi ainda mais significativa para mim: li uma referência à cidade de Ockham, nos Estados Unidos, logo depois de ter citado a navalha de Ockham em um texto que eu estava escrevendo. Por último, mas não menos importante, foi uma calorosa alegria encontrar dentro do livro um bilhetinho da querida amiga Bia Machado, que me presenteou com esse livro após recebê-lo da igualmente querida Pedrina Castro, como parte da brincadeira do P.U.L.A. (Passe Um Livro Adiante), da qual nós três participávamos no antigo Orkut. Lá o P.U.L.A. fez circular pelo menos 500 livros Brasil afora. Desde 2016, quando o projeto ganhou um espaço físico, inicialmente na Casa da Música e atualmente na Casa Verde Itapuã, mais alguns milhares de livros já foram distribuídos pelo P.U.L.A., para minha imensa gratidão e alegria. Tão logo um homem comece a se reconhecer em outro, não pode mais considerá-lo estranho. Queira ele ou não, forma-se um vínculo. (Paul Auster) https://comunidaderesenhasliterarias.blogspot.com/2024/07/entre-o-acaso-e-sincronicidade-nasce.html
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