Você que irá adentrar essa obra profana abandone todas as esperanças. O senhor Alan Moore não faz concessão aos tradicionais "Era Uma Vez" e "Viveram Felizes Para Sempre", tampouco subestima a capacidade erudita de seu séquito com guloseimas de fácil digestão.
Não! Assim como os trabalhos anteriores que consagraram o escritor, "A Voz do Fogo" dispensa os convencionalismos, desafiando o leitor a capinar as incontáveis referências escondidas sob o soalho de datas, nomes, acontecimentos e locais.
Em doze assombrosos contos intercalados que convergem para uma única voz fomentada por cumplicidades, traições, vinganças, assassínios, torturas, martírios, pesadelos, fantasmas, escatologias, perversões sexuais, humor corrosivo e toda sorte de augúrios, eventualmente surrreais e quase sempre macabros, o arcano escriba envereda pelo lado sombrio das mitologias, cultos e rituais pagãos, misticismo, religião e influências lovecraftianas, sem prescindir dos contextos políticos, arquitetônicos, geográficos e históricos.
Imprevisível como só a mal humorada genialidade britânica do tétrico bruxo de Northampton pode conceber, "A Voz do Fogo" mantém o nível complexo dos principais papiros do autor, sendo pouco palatável ao gosto dos menos iniciados.
Desaconselhável para simplórios e afins.
Persistindo os sintomas um xamã deverá ser consultado.