Nathan Zuckerman, alter ego, personagem recorrente na obra de Philip Roth, tem aqui 23 anos, alguns contos publicados e seu perfil destacado numa importante revista literária. O próximo conto de Nathan, que tem como tema personagens judaicos (como ele mesmo), desagrada sua família então lemos longos diálogos do jovem com seu pai, que tenta dissuadi-lo da publicação.
Tudo muito parecido com o que aconteceu com Roth no início de sua carreira de escritor, acusado de denegrir a comunidade judaica de Newark etc. Mas, e como se sabe também, muito da vida de Roth depois disso está presente em todos os seus livros. Daí que sua obra com frequência aparece ligada à expressão "autoficção autobiográfica" e outras semelhantes.
Em Diário de Uma Ilusão (também conhecido como O Escritor Fantasma, parte do livro Zuckerman Acorrentado, Companhia das Letras, 2011) estamos nos anos 1950, na casa do sexagenário escritor e ídolo de Nathan, E. I. Lonoff. Presentes também a esposa dele, Hope, e um brilhante aluna de Lonoff, Amy Bellette. Mas Nathan logo desconfia que parece haver algo mais entre Lonoff e Bellette do que simplesmente relações acadêmicas.
Enquanto isso há longas conversas entre Nathan e Lonoff sobre arte, literatura, a vida de um modo geral, mas grande parte do tempo o jovem continua a se preocupar com a possível relação entre seu ídolo e a jovem aluna dele. Então caminhamos para o ponto alto do livro, a metaficção armada por Roth com base nos diários de Anne Frank. Daí o título comercial (Diário de Uma Ilusão) que o tradutor brasileiro resolveu dar ao livro, em vez do original The Ghost Writer.
Os capítulos têm títulos curiosos, que dizem muito sobre os personagens e até remetem para a estrutura de uma peça teatral em quatro atos, por conta de seus longos diálogos travados pelos personagens. O primeiro se chama Maestro (óbvia alusão a Lonoff), o segundo Nathan Dedalus (retrato do artista Nathan quando jovem), Femme fatale é o terceiro (é sobre Amy Bellette, claro) e Casado com Tolstoi (sobre o relacionamento de Lonoff e a esposa Hope, em parte semelhante ao do escritor russo com a dele), quarto e último capítulo.
Bem Roth é Roth, um grande escritor desde sempre e que dispensa maiores apresentações etc. Ignorá-lo ou a seus livros diz muito sobre cada leitor em particular. Enquanto isso, em algum lugar em Estocolmo, alguém põe Bob Dylan na vitrola para cantar Blowin in the Wind...
Lido entre 05 e 09/01/2017.