“Suas primeiras lembranças são das noites frias de Campos Altos. Era ainda menina, tinha por volta dos sete anos. Papai costumava chegar de mansinho na madrugada e colocar as suas grandes e mornas mãos sobre os seus ombros, chamando grosso e baixo: - Ducarmo... Seu sussurro convidava o vento frio que adentrava as cobertas à medida que se estirava, espantando o sono que revestia os seus olhos de escuro no dia ainda não amanhecido. Erguia as preguiçosas pálpebras, tentando, em vão, reconhecer o mais breve feixe de claridade que ajudasse a situar-se. Puxava as roupas amanhecidas em seu corpo miúdo, tentando manter-se aquecida. Fazia movimentos leves, quase imperceptíveis, para não despertar a Rosária. Calçava as chinelinhas de couro e as arrastava, pesadas, pelo assoalho. Deixava o quarto, atravessava o salão, passava pela cozinha, pegava uma latinha, o coador e a cafeteira e, encolhida, mergulhava na escuridão que cobria o pomar da fazenda. O frio, então, parecia vir mais forte de dentro, do medo das cobras e onças que permeavam o seu imaginário, que do vento que adoentara Rosária há dois anos. Ia a passos largos rumo ao pomar, perdendo-se entre as folhas das laranjeiras e assustando as adormecidas galinhas, interferindo na precedência do galo e se cobrindo da teia de orvalho que a penetrava e a tomava paulatina.”
