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    O sonâmbulo amador -

    José Luiz Passos

    Alfaguara
    2012
    272 páginas
    9h 4m
    ISBN-13: 9788579621635
    Português Brasileiro
    3.5
    85 avaliações
    Leram122Lendo5Querem204Relendo0Abandonos11Resenhas6
    Favoritos3Desejados204Avaliaram85

    Grande vencedor do Prêmio Portugal Telecom de Literatura 2013, O sonâmbulo amador é um romance original, cativante e por vezes irônico, sobre os feitos nem sempre memoráveis de um homem marcado pela perda. Apesar de suas crises e incertezas, ele tenta se corrigir e acertar como marido, como funcionário, como amigo e até mesmo como herói. Jurandir é um pequeno funcionário da indústria têxtil pernambucana. Dias antes de se aposentar como chefe de segurança no trabalho numa tecelagem no interior de Pernambuco, empreende uma viagem ao Recife para resolver um processo trabalhista. A jornada prova-se um pesadelo; sem motivos aparentes, ele incendeia o carro da empresa e perde o controle de suas ações. Dois meses depois, é internado numa clínica psiquiátrica na cidade alta de Olinda e, a pedido de doutor Ênio, começa a escrever seus sonhos, que entrelaça com eventos do passado, relatos da juventude, suas opiniões e sua rotina de interno. Ao perder o limite das suas convicções, esmagado por eventos trágicos, tenta aceitar o passado e conviver com a precariedade do presente com a ajuda de um enfermeiro e de uma interna. Através do que Jurandir vê e narra, através mesmo do que ele tenta esconder, o leitor vai tomando consciência das tragédias que cercam a vida desse homem aflito: o acidente na juventude que o deixou manco; suas reflexões sobre a fragilidade das amizades; a traição e a crise no casamento; o desenlace fatal de seu único filho. Em quatro "cadernos", José Luiz Passos mescla formas distintas de narrar — a vivência diária de Jurandir, seus sonhos, suas lembranças da juventude e do casamento, seus próprios textos sobre figuras do passado — para compor, gradualmente, um retrato comovente, que revela o personagem tanto no que ele diz quanto no que procura esconder.

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    Maikel de Abreu picture
    Maikel de Abreu28/02/2013Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    Lições de um sonâmbulo

    Quando eu leio, faço perguntas. Esqueçam jargões acadêmicos, ou profundas análises, não sou capaz disso. Perguntas assim: Como pensou nisso? Como essas ideias vieram parar aqui? Que caminhos percorreu para conceber essa obra? Me pergunto sobre o estilo, estrutura, os recursos que um escritor pode usar. No caso de O sonâmbulo amador, do pernambucano José Luiz Passos, desisti de perguntas, e simplesmente, me atirei no universo do protagonista. A história se passa no final dos anos 60. Jurandir, sexagenário beirando a aposentadoria, supervisor de segurança de uma grande indústria têxtil, é designado para ir ao Recife resolver uma questão trabalhista de um jovem operário acidentado. Em um surto psicótico, coloca fogo no carro da empresa e consequentemente é internado em um sanatório na cidade alta de Olinda. Durante a internação, começa escrever além de um simples relatório diário – Dr Ênio, diretor da clínica, recomenda a Jurandir que comece a escrever sobre o passado, presente e até mesmo os sonhos detalhadamente. Além do apoio do psiquiatra, conta com a companhia e amizade da também interna madame Goes e do enfermeiro Ramires. Paulatinamente, através do exercício da narrativa, Jurandir vai deixando Doutor Ênio, Madame Góes, Ramirez e o leitor a par de suas tragédias pessoais, sem entregar nada de bandeja para quem lê. Faz um balanço de sua vida conjugal, da relação com a amante, o acidente fatal de seu único filho. Pontua, contradiz, reinventa-se ao longo do seu solilóquio – reconsidera suas amizades através dos sonhos e memórias, como disse o próprio autor em entrevista. Há uma ambientação discreta na agitação política da época, o enfermeiro Ramires menciona prisões de comunistas, a movimentação dos militares em Olinda. Já Madame Góes é uma figura repressora cheia de conselhos que poderiam caber em para-choques de caminhão, como o próprio Jurandir confessa ao leitor. O que se percebe de Passos é a habilidade em contar uma história de tantas idas e vindas no tempo. Os eventos desta trama são muito bem distribuídos ao longo da obra – não é confusa, é reflexiva. A narrativa dos sonhos faz com que o leitor perceba junto com Jurandir o que o passado representa diante de um presente pouco promissor. O livro é repleto de bons momentos, tanto nas construções da narrativa como nos diálogos. Aqui, um exemplo: "Já tão tarde num dia santo e a senhora ainda falando de mim, ele (Ramires) disse. Falo de quem merece. E o senhor não se cansa de escutar a conversa alheia? A rua é do povo Madame Góes. A rua é de quem trabalha pela rua, ela disse….. (Ramires se retira da conversa) É que ele odeia a vida, Jurandir. (Madame Góes) O Ramires? É odeia. Acho que não, falei. E ele não dança? Ela riu e se explicou. Uma vez, animado na conversa, o Ramires confessou que se tivesse um botão, como o presidente americano, apertava ali com tudo, para apagar o planeta. Bastava ele ter esse botão. Ele odeia a vida, Madame Góes repetiu. E você? Também tem raiva da alegria, abomina as classes?" Quanto às reflexões do personagem, não deveria ficar de fora este trecho: "Quem quiser, faça uma coisa. Diante do espelho, olhe nos olhos e repita duas ou três vezes aquele seu nome de infância. Jura, Jura, isto no meu caso. Vão e façam igual, qualquer coisa lá dentro se abre. Na vertigem dessa palavra vão voltar, tenho certeza, de bem longe as cenas de um tempo adormecido, o começo das coisas, momentos que passaram sem se fazer notar, com gente que não nos pedia nada em troca. Eram apenas o que eram. E não deixa de ser incrível que uma centelha disso tudo sobreviva nas cinzas de um mero apelido defasado." E a pergunta que fiz foi somente no final da leitura. Quanto tempo para conceber uma obra relevante como essa? Versões diferentes foram escritas e prazos editoriais eram coadjuvantes, e com paciência José Luiz Passos foi construindo Jurandir e sua jornada, ao longo de cinco anos. O que levei, entre outras lições desta obra, foi algo que deveria ter já em mente: que a paciência é ainda mais importante para o escritor.

    2 curtidas

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    Avaliações

    3.5 / 85
    • 5 estrelas13%
    • 4 estrelas36%
    • 3 estrelas40%
    • 2 estrelas9%
    • 1 estrelas1%
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    José Luiz Passos

    José Luiz Passos (Catende, 21 de dezembro de 1971) é um escritor, professor e tradutor brasileiro. Sociólogo de formação, é PhD em Letras pela renomada Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA). Lecionou na Universidade de Berkeley por nove anos e dirigiu o Centro de Estudos Brasileiros da UCLA, onde é professor titular de literaturas brasileira e portuguesa. É autor de diversos ensaios sobre o romance, a poesia e a prosa modernistas e a história do pensamento social, publicados no Brasil, na Europa e nos Estados Unidos.

    8 Livros
    7 Seguidores
    Pernambuco, Brasil

    José Luiz Passos