Sebastian é, para Ciel, somente mais um desses recursos, porém, é o seu recurso mais perigoso: tanto para seus inimigos quanto para ele mesmo. Contudo, independentemente disso, você acaba se encantando com ambos os personagens que trocam farpas psicológicas e, de certa maneira, filosóficas o tempo todo.
Existe nessa trama um desenvolvimento constante de dualidades, principalmente, quando se trata da pureza e da podridão humana; ora mencionada por Sebastian, ora mencionada por Ciel e, muitas vezes, mencionadas pelos antagonistas da narrativa, que trazem sempre uma personalidade marcante, um objetivo completamente monstruoso e que faz contraste quase que absoluto com a figura de Ciel, que não é nem um pouco santa.
O mais interessante é que, embora seja um shounen, Ciel está muito longe de ser uma figura animada, doce, burra e extrovertida, que é uma característica geral dos protagonistas do gênero desde Dragon Ball, de Akira Toriyama. Yana Toboso faz um trabalho sublime em desenvolver personagens únicos, construir roupas elegantes em seus traços sinuosos e criar lutas visualmente marcantes.
Entre todos os mangakás que eu já tive o prazer de conhecer e me aventurar em suas histórias, Yana Toboso, com a narrativa de Kuroshitsuji, para mim, sem sombra de dúvida, é a que mais se aproxima em estilo narrativo, desenvolvimento de história e de personalidade de Hiromu Arakawa, criadora de Fullmetal Alchemist. Inclusive, a noção de sacrifício e de figuras devastadas.
Além de tudo, há uma influência extremamente marcante da história e da cultura inglesa da Era Vitoriana, apresentando personagens históricos marcantes, como Arthur Conan Doyle, sua versão de Jack, o estripador e a própria rainha Vitória; cenários reais, acontecimentos verídicos, como o naufrágio do Titanic; e referências literárias, como o poema The Raven, de Edgar Allan Poe.
Obviamente, há muito mais aspectos a serem comentados a respeito de uma obra que já ultrapassou os dez anos de publicação, como a miscigenação entre magia e ciência, desenvolvimento tecnológico e literário, e até mesmo zumbis. Exatamente, zumbis. Há esgrima, demônios, lobisomens, armas fatais, venenos poderosos, arcos musicais, circos dos horrores - e tudo isso nos é apresentado bem ao lado daquele mordomo que também é demônio.
O RESTO DA RESENHA ESTÁ EM: https://gctinteiro.com.br/resenha-21-um-mordomo-e-tanto/