Uma obra fascinante com uma estrutura exemplar, o livro de estreia de João Ricardo Pedro, foi o grande vencedor do Prêmio LeYa 2011. Partindo da Revolução de 1974 em Portugal, este romance constrói a história de uma família marcada pelos longos anos da ditadura, pela repressão política e pela guerra colonial. Duarte, cuja infância se desenrola sob os auspícios de Abril, cresce envolto em memórias alheias que formam uma espécie de trama onde qualquer segredo se esconde. Pianista precoce e talentoso, afigura-se como o elemento capaz de suscitar todas as esperanças. Terá a sua arte essa capacidade redentora, ou se revelará, ela própria, lugar propício a novos e inesperados conflitos?
O teu rosto será o último -
João Ricardo Pedro
'Coleção Novíssimos': sobre três gerações de uma família
Bebendo das fontes mundiais e aclamadas 'Cem anos de solidão', de Gabriel García Márquez, e 'A casa dos espíritos', de Isabel Allende, João Ricardo Pedro faz de 'O teu rosto será o último' uma versão portuguesa da história de três gerações de uma família. E pode-se dizer que foi bem-sucedido, afinal, o livro abocanhou o Prêmio Leya de 2011, para autores estreantes, e até hoje é o livro mais vendido dentre os que ganharam o prêmio. Se a Guerra dos Mil Dias, na Colômbia, entre 1899 e 1902 serve como pano de fundo histórico para 'Cem anos de Solidão', e a Ditadura Militar Chilena como contexto para 'A casa dos espíritos', aqui o que se tem é a Revolução dos Cravos, mais precisamente em 25 de abril de 1974, com a queda do Regime Ditatorial Salazarista e a eventual implantação democrática em 1976. Tudo começa quando Celestino, um moribundo que se instalara na aldeia de Gardunha e ali se fixou, é encontrado morto. Augusto Mendes, doutor da aldeia, que se lembra de Celestino desde o dia que pisou os pés na Aldeia, reflete sobre o homem misterioso e sua morte. O homem, tanto em vida, quanto em morte, é cercado de mistérios. Ninguém sabe quem o matou, assim como não sabe porque apareceu ali anos antes, nem de onde vinha. O foco, porém, não está em Celestino, mas sim em Duarte, neto de Augusto, a quem conta suas histórias da época de ditadura portuguesa, que, não por acaso, escuta as histórias de seu pai, Antônio, um homem atormentado com a guerra que sucedeu entre Portugal e Angola, chamada de África Ocidental Portuguesa até sua independência em 1975. O próprio Duarte, um promissor pianista, tem que lidar com uma Portugal ainda em reestruturação. Como se pode perceber, contexto histórico não falta, e o autor não poupou pesquisas, leituras, para fazer com que tudo fosse passado em aparentar didático ou cansativo. Uma verdadeira aula de história, mesmo para um livro com menos de 200 páginas. Além disso, também temos, como era de se esperar, a relação dos três homens com suas cônjuges, no caso de Augusto e Antônio, que, quando têm sua vez, também mostram que não estão ali por acaso, mas têm sua devida importância para o livro e contribuem, finalmente, para que possamos entender o crescimento e evolução do ainda pequeno Duarte, com seus medos, traumas e aspirações futuras. Como se percebe ao final do livro, O teu rosto será o último vale mais pelo contexto histórico que pela história sem desfecho - escancarada, na verdade - em si. Decerto vai incomodar leitores que gostam de finais redondinhos, ou um pouco mais esclarecidos, o que certamente não acontece aqui. A impressão que fica é a de que há uma continuação. Uma estreia acertada e pomposa, 'O teu rosto será o último' brilha na Coleção Novíssimos com esta obra-prima que nada falta em escrita, construção de personagens e, principalmente, contexto histórico. Junto com Rio Homem, de André Gago, e Anatomia dos Mártires, de João Tordo, são os que salvam a coleção irregular. A 'Coleção Novíssimos' tem a intenção de, em 10 livros, reunir importantes nomes da nova Literatura Portuguesa. Para saber mais sobre os outros livros, acesse:
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