Em Um Piano Para Cavalos Altos, Sandro William Junqueira cria uma metáfora a partir de um mundo regido pela ordem e pela disciplina, em uma cidade cercada pela natureza, onde animais selvagens se tornam ameaças após um inesperado desastre, o que deixa a população com medo. O Governo sabe que esse é o motor para manter as coisas organizadas, por isso decide que elas devem permanecer assim.
Um Piano Para Cavalos Altos (Coleção Novíssimos) -
Sandro William Junqueira
Um desafio
Resenha originalmente publicada em meu blog aceita um Leite? http://www.aceitaumleite.com/2013/04/um-piano-para-cavalos-altos-de-sandro.html Quando recebi Um Piano para Cavalos Altos da Editora LeYa, logo percebi que seria uma leitura totalmente diferente do que estou habituada e que o título não se "encaixa" na minha estante. Não tenho nada nas minhas prateleiras que se pareça com a obra de Sandro William Junqueira, o que deu um novo ritmo às minhas leituras, me fazendo sair da zona de conforto. Esta leitura foi uma experiência muito diferente e construtiva, agravada, ainda, por um fator um chave: eu tinha acabado de ler V de Vingança, uma das melhores traduções do gênero da distopia. Eu não sei classificar Um Piano para Cavalos altos de forma objetiva, mas o livro possui elementos da distopia intrínsecos, então sair da obra de Allan Moore direto para o livro de Sandro William Junqueira me abriu um novo leque de possibilidades. Eu não sabia o que esperar do livro. Na verdade, eu não me identifico com a literatura portuguesa, e uma das minhas grandes blasfêmias é não ter conseguido ler Saramago. Mas Um Piano para Cavalos Altos vai muito além da distinção por gênero ou nacionalidade, tamanha a sua individualidade. Mencionei a distopia porque o enredo deste livro se passa num tempo indeterminado, em um lugar indeterminado, dominado por um governo totalitarista e opressor, que vê sua hegemonia abalada após um acidente envolvendo um militar e um animal selvagem. Tudo não passaria de um contratempo se um homem conhecido como O Mensageiro não tivesse previsto o acontecido, colocando por terra diversos preceitos estabelecidos pelo Governo, inclusive no tocante à espiritualidade e à religião. Este livro não é uma distopia, mas poderia ser. A grande questão é que o foco do enredo são as pessoas, a forma como os personagens lidam com a situação em que se encontram, com uma cartilha de regras que dita que tipo de pessoas elas são, o que deveriam fazer, pensar e acreditar. O fato de nenhum personagem possuir um nome, mas ser identificado por uma característica própria, dá ao livro uma abordagem mais abrangente e deixa a interpretação do leitor mais aberta. Porém, sair de V de Vingança para Um Piano para Cavalos Altos me fez questionar muitas coisas sobre a obra de Junqueira, até que, enfim, percebi que minha abordagem estava equivocada. Eu conhecia cada vez mais profundamente cada personagem e sua situação, mas virava páginas buscando o desfecho de uma guerra, as explicações para aquele governo opressor, enfim, eu buscava uma distopia. Mas eu não estava lendo uma distopia, e quando percebi que estava lendo este livro de forma "errada", respirei fundo e me concentrei apenas no que o autor escreveu. É uma história muito interessante, que aborda o psicológico humano e a forma como o ambiente pode interferir em nossas vidas. O autor mostra como personagens diversos lidam com as circunstâncias as quais estão condicionados de forma visceral e despida de hipocrisia, por isso, fica um alerta: ao leitor que se sente desconfortável com uma leitura mais densa e que aborde o sexo de forma mais natural e sem uma romantização, o livro pode ser incômodo. Foi uma leitura que me deixou inquieta e que provavelmente eu tenha que ler novamente para captar detalhes que eventualmente me escaparam. Foi bastante desafiador principalmente porque, numa narrativa tão naturalista, é difícil se identificar com os personagens, mas ao mesmo tempo, o leitor precisa se despir dos julgamentos. Ou seja, a leitura exigiu muito que eu eliminasse meus preconceitos. Um Piano para Cavalos Altos foi uma experiência muito construtiva e eu me senti uma leitora mais madura, mas não achei 100% genial. Uma coisa que muito me incomoda na literatura portuguesa, e que parece ser uma constante, é que os textos parecem ter aquele leve acabamento parnasiano que faz com que a estética seja mais floreada e o enredo seja o coadjuvante, e ainda não em acostumei com isso. Mas indico a leitura para quem estiver em busca de desafios e queira sair da zona de conforto.
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3.6 / 118- 5 estrelas25%
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