Kafka Na Cama - Contos

    Jair Ferreira dos Santos

    Civilização Brasileira
    1980
    169 páginas
    5h 38m
    ISBN-1: 0
    Português Brasileiro

    Jair Ferreira dos Santos não é apenas um contista a mais entre muitos que têm aparecido ultimamente. "O Conto" - advertia há pouco Wilson Martins - "é hoje o que o soneto foi no passado". Uma espécie de moda. Ou mesmo de mania. Ou até prenda intelectual que se precisa exibir. O autor de Kafka na Cama se me afigura narrador de história curta por íntima determinação ou escolha. Seu modo natural de surpreender a vida - e de reelaborá-la artisticamente - é o conto. Mais do que fábula a narrar, o que lhe interessa é como tratá-la, o modo de produção ficcional, a maneira de, através da linguagem, fixar um instante vivido ou observado. Para tanto usa o verbo com desempeno e agilidade e, dentro de suas coordenadas narrativas, não hesita em estabelecer entre ele e o leitor certo distanciamento crítico. Crítica que atinge a si mesmo enquanto escritor, aos seus personagens e à sociedade que resgata do quotidiano quando a transpõe para o plano artístico. Coisa que executa com perícia e sem jamais apartar-se da sofrida condição humana. Jair Ferreira dos Santos recusa-se a ser mero contador de casos. Impedem-no dessa limitação o rico poder verbal, a afogueada imaginação e, muitas vezes, o corrosivo e impiedoso humor. O humor - e, de quando em quando, a ironia - partem, em muitas de suas histõrias, antes de sua atitude diante dos acontecimentos do que dos acontecimentos eles mesmos. Sabe desnudar-lhes o ridículo e o grotesco. O que não lhe tolhe, porém, o lirismo de várias passagens. De tudo isto resulta um livro pra escarninho, ora dramático, aqui cínico, ali cruel, e quase sempre pungente. Jair Ferreira dos Santos também se compraz, em algumas páginas, na prática do absurdo e, se a tanto se arrisca, o faz com engenho e arte. Não é, contudo, um cultor do absurdo pelo absurdo. A ele chega antes pelo imperativo da realidade em si insólita. Ninguém se luda com a envolvente comunicabilidade do escritor. Ele às vezes exige que seu conto seja lido devagar, de ponta a ponta. Pois, só assim muitas nuances psicológicas ou de situações - todas propostas de maneira estilicamente reveladora - atingem realce; só casando as partes, as subhitórias da história maior, se alcança o pleno entendimento e - o que é mais importante, fundamental mesmo - o preciso significado do conjunto. É o que ocorre, por exemplo, com "Sextuor: o pai", onde todas as suas qualidades de escritor se destacam. Jair Ferreira dos Santos, em vez de complicado, é um narrador complexo. Um contista a mais? Não. Um contista firme, já marcante. Um contista de quem só se pode esperar progresso, o aproveitamento total de suas virtualidades narrativas ora explodindo - e se estilhaçando - em Kafka na cama. Jair não acaba neste livro. por Mário da Silva Brito

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