Temendo sucumbir aos desejos múltiplos e contraditórios que guerreiam em sua mente, Andrea torna-se noviço da Companhia de Jesus. Se num primeiro momento beneficia-se da serenidade oferecida pela religião, logo sobrevém um sofrimento indisfarçável- curvar-se às regras rígidas e vexatórias que marcam a vida no claustro equivale a neutralizar todo senso crítico, todo exercício da inteligência, toda busca religiosa autêntica. Na divisa entre a fé e a razão, surge a paixão amorosa por Lodovici, companheiro de noviciado, encarnação da beleza terrena- dos perigos e mistérios que ela representa. Neste romance de vigor extraordinário, Furio Monicelli retrata o confronto duríssimo entre disciplina e liberdade, humildade e orgulho, purificação e desejo. Sua narrativa desdobra, diante de nós, todas as conseqüências de uma tragédia existencial.
Lágrimas Impuras -
Furio Monicelli
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Assim como o sexo, as questões referentes à religião ainda são tabus para a humanidade, a despeito (ou, talvez, em detrimento) de toda a “evolução” ideológica que os seres humanos alcançaram ao longo de séculos de estudo, ciência e filosofia. O homem anseia saber o seu lugar no universo, e isso independentemente de religião ou ateísmo; ele procura uma perspectiva sobre a qual se basear a fim de assegurar um significado para sua vida (espiritual e/ou carnal). Assim, mais cedo ou mais tarde o indivíduo precisa lidar com o conflito fundamental inerente ao ser humano: o embate existencial entre fé e razão. “Lágrimas impuras”, do italiano Furio Monicelli trata justamente desse conflito existencial, acompanhando a jornada do jovem Andrea em busca do sentido da fé, dos valores cristãos e da aproximação transcendental de Deus. Com uma mente inquieta, Andrea foge de casa para se tornar noviço da Companhia de Jesus, esperando assim combater as tentações e os desejos que lhe afligem. A princípio, suas intenções são satisfeitas, pois ele alcança sossego e serenidade espirituais em meio à religião. Entretanto, logo suas ilusões são desfeitas quando ele percebe que estar no claustro significa abrir mão de sua liberdade ideológica, seu senso crítico e quaisquer outras manifestações de intelectualidade e individualismo. É necessário adequar-se a regras inflexíveis e inquestionáveis, as quais Andrea nota que antes obstruem do que aprofundam sua busca religiosa. Nesse ambiente insustentavelmente dogmático, Andrea vê renascerem seus conflitos relativos à fé, o que impõe um jogo de duplos: disciplina e liberdade, castidade e tentação, humildade e soberba, enfim... elementos que Andrea não consegue ordenar. Sua busca por Deus torna-se ainda mais tortuosa com as influências de dois personagens marcantes: o irmão Lodovici, por quem Andrea passa a nutrir um confuso interesse de conotação carnal e, simultaneamente, espiritual, e o irmão Zanna, declaradamente inconformado com as regras inflexíveis do claustro, e cujas ideias teológicas/filosóficas são tão esclarecidas e convincentes que deixam Andrea estarrecido. A trama de “Lágrimas impuras”, propriamente, é bastante estagnada, uma vez que no romance o que conta é a complexa análise psicológica de Andrea e de seus confrontos íntimos em meio a um ambiente autoritário e não raro hipócrita. O livro chega a ser claustrofóbico, perturbador nesse sentido de isolamento, não apenas físico, mas também ideológico. É uma leitura simples, sem floreios linguísticos, mas profundamente inquietante.
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