Este livro quebra completamente os padrões típicos da era da regência e/ ou vitoriana situado em Londres e ao estilo de Highlands ambientado nas Terras altas da Escócia nos romances históricos
Sua história se desenvolve no ano de 1213, no século XIII, exatamente na Espanha antiga, nos tempos da Reconquista Espanhola para reconquistar os territórios perdidos pelos muçulmanos.
A proposta da autora não é ingênua, ela quis configurar a atmosfera de intrigas entre os reinos cristãos – Navarra, Leão, Castella e Aragão – e os conflitos que durou por mais ou menos quatro séculos entre os cristãos e os almohades.
Acredito que para escrever um livro nesta categoria “romance”, documentando com exatidão fatos históricos, e indo na contra mão contra o gosto popular da maioria, pois neste livro vemos que são dois os pontos em contrapartida: ele é medieval e é ambientado na Espanha, a autora demonstra muita ousadia.
Entretanto, seu entusiasmo, original e pouco comum, em documentar a história, nos transportam com detalhes primorosos a cenários históricos, porém devo admitir que apesar do contexto histórico ser bem trabalhado, eu me senti a maior parte do tempo confusa e parecia que os fatos estavam sendo despejados sobre mim.
Sua escrita é fácil de acompanhar, o vocabulário é adequado à época e há um equilíbrio entre os diálogos e a narrativa, todavia no desenvolvimento do enredo é que fica a desejar.
A compreensão das intrigas e conspirações entre os reinos, mesclado com as guerras familiares, o aspecto psicológico e a motivação dos personagens - vinganças, lutas e confrontos – comprometeu meu entendimento e para mim ofuscou a trama principal.
O livro é dividido em 4 partes: Prologo, chamado de Ira e Fogo, Ira, Fogo e Epílogo.
O prologo é apresentado para explicar a amizade, os votos e as promessas feitas durante a infância entre alguns personagens.
A Ira e Fogo são as partes sobre o desenvolvimento da história, contudo a primeira – Ira – foi a que achei mais confusa. Ela explica a relação na Península Ibérica entre os reis cristãos – D. Sancho VII, de Navarra; Rei Afonso VIII de Castella; Rei Pedro de Aragão e o Rei de Leão que é citado, porém sem dizer seu nome – e as desavenças territoriais com o califa almohade Abu Yusufao-Mansur.
No Fogo é onde o romance se desenvolve e as relações dos protagonistas se intensificam.
O Rei Sancho VII de Navarra da corte de Pamplona gerou uma filha bastarda – Jimena Blasco - com a filha única – Maria Blasco - do conde de Fortun de Toledo em Castella. Esta por sua vez gerou um filho – Juan Blasco – herdeiro do condado de Fortun e do reino de Navarra.
Se Navarra não tivesse sucessor, Aragão seria mais poderosa, pois o Rei Afonso VIII de Castella que é primo do Rei de Leão descobrisse que Navarra possuía um herdeiro castelhano, tomaria a tutela do menor até a maioridade, tornando Castella mais poderosa entre os reinos e entraria em guerra contra Aragão.
No entanto, a revelação deste segredo só é de conhecimentos de alguns e o Rei Sancho VII de Navarra pretende sequestrar seu neto ilegítimo do conde de Fortun, que carrega mágoas antigas do mesmo por ele não ter se casado com sua filha quando a engravidou. E o Rei Pedro de Aragão, pretende evitar que isso aconteça.
Portanto as intrigas entre os reinos são delicadas, mas existe ainda a disputa pela conquista de territórios cristãos pelo Rei Afonso VIII, da corte de Burgos que precisa unificar a nobreza e formar alianças entre os reinos.
Entrementes as atmosferas de intrigas e conspirações entre os reinos estão os protagonistas da história: Dulce e Adoain.
Dulce Alvarez é a protetora de Juan Blasco, designada a ensinar árabe e hebraico ao “pestinha”. Ela mora no condado de Fortun, contudo suas origens são do condado de Arienza, território lionês e esta prometida em casamento ao conde Ignácio Nuñez, para benefício políticos de seu irmão Miguel, palatino - um tipo de guerreiro, ou melhor homem de guerra que protege o rei - do Rei Afonso VII de Castella.
Adoain Estella é um navarro arrogante e orgulhoso, conde de Bearin, que começa na trama preso em uma masmorra no Castelo da Colina de Santa Bárbara em Tudela, acusado injustamente de estupro por uma mulher mentirosa que exige como reparação que ele se case com ela. Impossibilitado de provar sua inocência e informado do assassinato do seu pai por um castelhano, aceita a missão do Rei Sancho VII de sequestrar seu neto no condado de Fortun e aproveitar a oportunidade de vingar a morte de seu pai.
Entretanto, a empreitada não será tão fácil assim, pois sua mãe – Luzia – foi sequestrada por seu pai Enrique num torneio em Castella e é parenta do conde de Fortun.
Adoain e Dulce sentem uma forte atração assim que se veem pela primeira vez. A relação dos dois é construída em circunstâncias sensíveis e passam por diferentes estágios, pois ambos devem lealdade a monarcas diferentes, e somente isso já é um desafio enorme.
Adoain não gosta de mulheres – no bom sentido – é rude e não confia nelas, enquanto que Dulce é movida a tomar decisões em razão dos outros, o que faz que essa sua natureza compassiva traga mais problemas que soluções. Todavia são muitos os problemas que eles têm que enfrentar o que faz com que o jogo entre eles seja intenso.
Sobretudo o que me incomodou na relação entre um e outro, foi que, inicialmente não ficou bem claro que tipo de atração eles possuíam, se o que predominavam era o desejo ou o amor que eles sentiam.
Admito que essa é minha avaliação pessoal e que não gosto muito deste imediatismo, e que isso impede uma profundidade e uma maior comunicação entre os protagonistas, enfim...
Os personagens secundários são bem retratados e possui um valor estimável dentro da história.
Pedro Artáiz é um servo fiel e disposto a servir.
Kamil e Fátima moram no palácio de Mudaÿÿan – que é o título do livro – no Emirado de Batalyws e tem uma participação essencial dentro da história.
*Pessoalmente eu queria que eles tivessem aparecido mais dentro da história, o Kamil é um amor!
Miguel, irmão de Dulce, na maior parte da leitura eu fiquei com uma impressão vaga sobre o seu caráter. Quando tinha atribuído ter ficado em suspenso, ele me surpreendeu, parecendo ter um leão guardado dentro de si (ele faz parte do reino de Leão, rs). Não obstante, reforçando a essa minha impressão, no epílogo, a autora deixa em aberto uma segunda história dele com Clara, irmã de Adoain, que já então dentro da história tem um inicio “daqueles”... (risos).
A história é cheia de dados históricos, vingança e paixão a permeiam toda, porém a autora deixou uma ponta solta, que não chega a prejudica-la, apesar disso para um leitor bem atento não soa muito convincente. Quem foi a pessoa que mentiu para o Rei de Navarra e com qual intenção? Afinal, foi por causa dela que Adoain se submeteu à missão do sequestro. Enfim, algo que também não me pareceu lógico foi sobre a doença da mocinha, o que me levou a questionar como ela fazia quando estivesse “naqueles dias”...
O livro recebeu o prêmio Veludo de novela Romântica em 2012 e apesar dos diversos pesares encontrado, ele não me cativou, entretanto merece atenção por ultrapassar contornos do próprio gênero e seu maior mérito fica com certeza, para o cuidado excepcional que a autora teve em criar cenários históricos numa ficção romantica.
Avaliei com 3 estrelas.