O cordel "Os Sofrimentos de Alzira" é de autoria de Leandro Gomes de Barros (1865-1918), um dos poetas populares mais famosos em solo nacional, tendo publicado centenas de obras. Nesta história rimada, o cordelista, embora conhecido por sua escrita com humor usual, investe num clima concomitantemente dramático, melancólico e profundamente religioso.
A trama enfoca, como o título propõe, nos dissabores que a protagonista Alzira se vê compelida a enfrentar, sobretudo pelas perseguições a ela dirigidas, por conta da sua fé cristã. Cabe ressaltar que Alzira, embora oriunda de uma nobre família da corte, desde criança cultivava um espírito de humildade, reconhecendo a sua miséria e pequenez, concomitante a grandeza de Deus Pai. Sobre a virtude da humildade, Mons. Ascânio Brandão (A Humildade, 1941, p. 11) ensina-nos que esta é "[...] realmente o fundamento da perfeição, e a chave dos tesouros da graça, a virtude absolutamente necessária a todo cristão". Nos seus atos de amor, regados por uma solidariedade genuína pelos seus semelhantes, em suas incessantes orações, por si própria e pelo próximo, podemos claramente identificar a virtude da humildade em Alzira. Sua atitude muito diverge daquela adotada por seu pai, um conde que apenas prezava os bens materiais, até mesmo acima de sua própria filha.
É interessante salientar que mesmo em face de inúmeras adversidades, Alzira mantinha íntegro o seu coração, e diante das suas incessantes súplicas, Deus sempre as atendia. É nesse sentido que nos exorta o apóstolo São Pedro, quando diz "humilhai-vos, pois, debaixo da poderosa mão de Deus, para que ele vos exalte no tempo oportuno" (1Pd 5,6). Em certa ocasião, se encontrando abandonada numa ilha deserta e com a alma entristecida, a jovem moça foi agraciada com a aparição de uma mulher que lhe asseguraria proteção e sustento material, incentivando-lhe o espírito de luta, na certeza da vitória. Acredito que a mulher sobredita trata-se de Maria Santíssima, Nossa Mãe. Destaco um trecho marcante de Sua fala: "Eu sou mãe dos desvalidos / amparo dos desgraçados / glória dos arrependidos / consoladora dos tristes / doçura dos afligidos" (BARROS, 1974, pg. 34).
Ademais, convém observar que Alzira não almejava, em momento algum, pagar o mal com o mal contra aqueles que atentavam contra ela e planejavam-lhe traições e armadilhas. Mas, sim, seguindo os ensinamentos de Cristo, ela os perdoou, além de recomendá-los a pedirem perdão a Deus pelas suas faltas. Afinal, se Deus nos perdoou em Jesus Crucificado, porque não haveríamos de nos perdoar uns aos outros também, sendo bondosos e compassivos? (cf. Ef 4, 32).
Em última análise (mas longe de querer esgotar os ensinamentos da obra), gostaria de chamar a atenção para o desfecho da história, sobretudo no tocante ao casal principal. Provavelmente isto será um "spoiler", mas eu não poderia deixar de falar sobre - então quem lê sinta-se à vontade para pular esta parte. Há quem possa discordar da reconciliação amorosa entre Alzira e seu marido, enxergando nela uma mera submissão feminina, enquanto consequência do sistema patriarcal. Sim, reconheço que ao decorrer da trama certos aspectos machistas se mostram evidentes, dado o contexto da época, e atesto, não corroboro com tais pontos de vista. Porém, reflitamos: como Deus nos criou à sua imagem (cf. Gn 1,27), se deixarmos o orgulho de lado - este que é o principal obstáculo para a humildade -, e pedirmos perdão, bem como perdoarmos a quem nos feriu, não estaríamos nos reconciliando também com o Pai? E afinal, não é isto que nos ensina a Sagrada Escritura, reconciliarmo-nos com Deus? (cf. 2Cr 5, 18-20).
Para concluir, indico a todos a leitura deste cordel, o qual, ao passo que diverte, certamente traz em seu bojo muitas lições para aprendermos e praticarmos em todas as circunstâncias da nossa vida, com especial prudência nos momentos de provação.