Não resta pedra sobre pedra após a leitura atenta deste que é um divisor de águas para a interpretação de tradições culturais de beleza no ocidente escrito pela feminista Sheila Jeffreys. No livro, ela expõe a hipocrisia de feministas ocidentais em taxar práticas de beleza direcionadas exclusivamente a mulheres como “escolha” e “capacidade de exercer agencia” quando na cultura ocidental e taxar práticas similares das culturas orientais como “opressivas”. ( ex footbinding na China x saltos altos)
No primeiro capítulo, Jeffrey começa a questionar todo o conceito de escolha que está implicado nas análises feministas feitas sobre as práticas de beleza. A pergunta colocada por ela as feministas não estruturalistas é porque mulheres “escolhem” as práticas de beleza e homens não fazem o mesmo? Essa pergunta que mudaria toda a discussão em torno da beleza não é feita por correntes feministas que vivem em paralelo a Jeffrey. Ela então critica o livre The Beauty Myth (O mito da beleza) por não fazer essa pergunta e aponta que é esta pergunta não feita que o torna um livro de feminismo liberal. Embora eu ache que o livro em questão seja poderoso, realmente ele não questiona as estruturas patriarcais que levam mulheres a praticas de beleza (tradução livre).
No segundo capítulo, ela propõe que todas as práticas de um sexo devem ser examinadas para o propósito político de manter o sistema vigente de dominância masculina. Esta reflexão seria a que nos levaria a questionar as práticas de beleza oriundas de mulheres. As contínuas práticas de beleza são feitas por mulheres para que a diferença entre homens e mulheres seja acentuada com o propósito de apaziguar o sentimento de perda de dominação sentido por homens que convivem com mulheres no seu meio de trabalho. Por isso, mulheres dentro da forçada de trabalho são assediadas moralmente a usar sapatos de salto. Toda essa análise é feita no capítulo 7 onde ela também aborda o fetichismo ao redor dos saltos altos na imaginação masculina tanto hetero quanto homossexual.
No terceiro capítulo, Jeffrey fala a divergência entre a transfeminilidade da feminilidade impostas as mulheres, sendo a ultima parte do status inferior de cidadão de segunda classe que mulheres possuem em uma sociedade patriarcal. Jeffrey também explicita que existe uma “arrogância em homens que acham que seu interesse sexual em subordinação os faz mulheres” ( MTL). E ela conclui demonstrando que apesar da realidade nua crua da dominação masculina é claramente revelada dentro da transfeminilidade, muitos autores queer a proclamam transgressora.
Já no quarto capítulo a autora mostra como pornografia entrou dentro da cultura pop e foi normalizada através de cantoras como Madonna, e estilistas gays que projetam sua idéia de feminilidade em corpos femininos. Aqui a autora faz a pergunta que deve ser reproduzida dentro de toda a indústria da moda:
“ The question of why gay men should be so interested in creating clothes for women, who are not their sexual partners, or, probably, the focus of their erotic imaginations, is an important one.” A pergunta de porque homens gays estão tão interessados em criar roupas para aqueles que não são seus parceiros sexuais ou, provavelmente, o foco de suas imaginações eróticas, é importante. Jeffreys não pouca ninguém de sua critica, e parte daí para explicitar a misoginia dentro da cultura fashion gay.
O livro também demonstra como praticas de beleza hoje normalizadas como depilação íntima e implantes de seios tem suas raízes na normalização de imagens pornográficas no imaginário masculino, uma vez que essas práticas não são feitas para satisfazer o prazer sexual feminino.
Aqui também cai por terra a idéia falaciosa de que uma vez que essas práticas são passadas de mãe para filha elas seriam menos agressivas e se agressivas total responsabilidade de mulheres. Tirar a dominância masculina da cultura e ver o fenômeno somente como algo somente feminino é recusar a existência da sociedade patriarcal.
O livro é essencial para um primeiro entendimento de criticas de feministas radicais a praticas de beleza, mas Jeffrey não é perfeita, ela cita uma única vez a situação de mulheres negras dentro da força de trabalho e embora ela muito corretamente mostre que beleza está completamente associada a supremacia branca ela não dedica um capítulo de sua obra a essa discussão. Ela também está em ponto de vista que a permite concluir que a recusa total de usos de símbolos de feminilidade poderiam levar a criação de uma resistência maior, assim, ela ignora o assédio que muitas mulheres sofrem no dia a dia por essa recusa. Em suma, ainda que poderoso, o livro ainda é sobre feministas brancas de classe média que estão criticando uma sistema de dominância que não as coloca no mesmo patamar que seus pares do sexo oposto, mas de mesma raça. Recomendo a sua leitura atenta, porém aliado a leitura de livros de feministas negras.