O Encoberto -

    Natália Correia

    Edições Afrodite
    1969
    122 páginas
    4h 4m
    ISBN-1: 0
    Português

    Esta peça foi escrita sob o pesadume do regime fascista que a proibiu de subir à cena e mesmo de circular em livro. Não logrou porém a interdição impedir que, pelos canais da divulgação clandestina “O Encoberto” fosse ganhando foros de clássico da dramaturgia moderna. Estudantes estrangeiros dedicam-lhe teses e passagens do seu texto epigrafam estudos sebásticos. Em “O Encoberto” a autora desvia-se do enfoque habitual do mito de D. Sebastião, desdenhando a circunscrição histórica que o aperta numa data. O reinado filipino é só uma camada da estrutura dramática que se dilui na intemporalidade do mito de que é apoio antitético. A composição enevoada do mito, configurada na manhã de nevoeiro que será rasgada pela visão reluzente do Salvador é a densidade psicológica de um povo em situação omissa. Nesta se funda a acção da peça, na qual todas as personificações gravitantes de D. Sebastião são fantasmas por alucinante arrastamento. Neste campo de apetência subjectiva do povo português Natália Correia imprimiu uma “actualidade contínua” ao seu Encoberto. Seja qual for a época em que expluda a crise de omissão nacional, esta plasma-se no sonho espectante da vinda do Desejado. Para acalentar a ressurgência do mito estava particularmente destinado este nosso tempo de hecatombe histórica. O afundamento de séculos de vida nacional, acutilada por uma cadeia de desestabilizações, algumas delas visando o colapso da independência nacional, viria repor no horizonte da persistente vocação sebástica a estrela absurda do Rei Fantasma. É de facto impressionante que num texto de resistência à “ocupação fascista” a autora tenha visionado uma situação de fim que viria a produzir-se na sequência de uma revolução conduzida por forças adversas aos imperativos nacionais e na qual dramaticamente se aclimata a fisionomia que imprimiu a D. Sebastião. Merece também um curioso destaque ter Natália Correia intencionado no desfecho da sua peça a mundialização do mito sebástico. Dir-se-ia que a autora vaticinava há nove anos vir a converter-se Portugal num ponto de agudização da crise ocidental promotora de um sentimento escatológico que vai buscar esperanças à reserva messiânica nomeadamente no culto dos ovnis.

    Resenhas (1)Ver mais
    @psi.adriana.scarpin picture
    @psi.adriana.scarpin20/08/2025Resenhou um livro
    4 (Muito bom)

    Mais um da saga dos cursos de inverno da USP, novamente o teatro português de Natália Correia, dessa vez abordando o sebastianismo no século XX. O sebastianismo no conceito da ditadura de Salazar era uma esperança da esquerda de haver um D. Sebastião simbólico que os livraria do fascismo, então obviamente a peça da Natália foi censurada por apresentar o último dos pretensos Sebastião que surgira depois de "morto" e que aqui é igualmente ressuscitado tal como um Jesus messiânico que vai por séculos reiterar sua presença no imaginário popular português. A lenda do sebastianismo começou quando na batalha de Alcaçar Kibir o corpo de D. Sebastião jamais foi encontrado, vindo parar até no Brasil com Antonio Conselheiro. São séculos de um messianismo que Natália Correia utiliza para alegorizar a Portugal dos anos 60, quando o Salazarismo estava em vias de extinção.

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