Um épico existencialista, erótico, lisérgico e filosófico
Hermilo Borba Filho é apontado por muitos como uma espécie de "Henry Miller brasileiro" e, lendo a sua obra, é notável como há vários pontos de contato entre a produção dos dois escritores. Tal qual Miller, que escreveu a trilogia semibiográfica da "Crucificação Encarnada", Hermilo possui como obra de maior destaque sua tetralogia intitulada "Um Cavalheiro da Segunda Decadência", cujo último volume é este "Deus no Pasto", lançado em 1972. Trata-se uma narrativa confessional, com pitadas de realismo mágico, sobre um escritor e dramaturgo de meia-idade que retorna a uma Recife em plena transformação para assumir um cargo público na Prefeitura, ás vésperas da tomada do poder pelos militares na década de 60. O protagonista, ao longo das páginas, está sempre em constante conflito, seja no campo profissional (deseja fazer o que pode para implementar seus ideais progressistas, mas é travado por sua descrença com os políticos em geral) quanto no campo pessoal (apaixona-se perdidamente por uma de suas alunas, mas não consegue deixar a esposa e os filhos). É uma leitura difícil até mesmo de ser propriamente resenhada, por ser uma verdadeira experiência sensorial. O autor entrega uma verdadeiro épico existencialista, erótico, lisérgico e filosófico. Uma leitura maravilhosa, para ser degustada com calma (os 20 dias que levei para concluir a leitura refletem isso). É para viajar sem precisar se locomover. Imperdível.
