Quando se passa a vida apenas ‘fazendo o que tem que ser feito’, carregando fardos nem sempre forjados ou construídos por nós. Sem uma saída provável ou possível, resta apenas o cansaço, o corpo pedindo um pouco mais de alma.
Como no poema de Drummond:
“[...] A vida te viveu sem que vivesses nela.
E não te convenceu nem deu qualquer motivo para haver o ser vivo [...]”.
Ou na poesia de Fernando Pessoa:
“O que há em mim é sobretudo cansaço
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço [...]”.
A certeza e a fé de que um propósito (mesmo incompreendido) para sua vida foi desenhado por um Deus superior, fica encoberto na resignação do somente seguir em frente. Assim, muitas vezes deixamos de perceber que a vida é bela (mesmo que a sua não seja), do quão grandioso e maravilhoso é o plano da Criação na Terra, concebido por Ele.
Nesse sentido, é que “É sagrado viver” faz emergir a certeza e a fé que trazemos encobertas, fazendo-nos volver um olhar sobre a simplicidade e beleza da vida. Pe Fábio de Melo fala de si e de sua própria vida, através de crônicas com temas do cotidiano, vida, religião, reflexões, sentimentos, mas com a notável capacidade de ler a alma de quem está lendo seus escritos. Como bem traz em uma passagem do livro:
“O poeta tem o poder de restituir ao coração humano as suas perdas.
Suas palavras caem diante dos meus olhos, penetram no meu entendimento e com elas me identifico.
Olho sua confissão e tenho sua consciência de que não fui eu que disse, mas é como se fosse. Palavras que não foram ditas por mim, mas que são minhas, ditas por outra boca.
Olho para elas e reconheço o meu sentir solitário, nunca antes partilhado e agora tão exposto ali, contado para todo mundo.
Quem levou a ele notícias minhas? Quem lhe revelou os meus segredos? Quem lhe falou de mim com tanta propriedade? [...]”.
Quando se tem fé e ama-se verdadeiramente o semelhante, é possível extrair conforto em apenas observar a magnificência da vida como ela efetivamente deve ser, e não como ela nos apresenta. “É sagrado viver” mostra esta beleza.