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    Por que Não Somos Nietzcheanos -

    Luc Ferry, André Comte-Sponville

    Editora Ensaio
    1994
    294 páginas
    9h 48m
    ISBN-10: 8585669012
    Português Brasileiro
    4.6
    6 avaliações
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    "A pergunta era: por que você não é nietzscheano? [...] nós que não confundimos o valor e a verdade (nós que renunciamos a crer que seja verdadeiro tudo o que desejamos, mas não a desejar a verdade!), nós que amamos a verdade mais do que o belo, o real mais do que a arte e a arte mais do que os estetas, nós que acreditamos na ciência e na razão, nós os clássicos (a arte a serviço da verdade, eis o nosso culto!), nós os racionalistas, nós os continuadores de Sócrates e das Luzes - e mais especialmente nós, os discípulos de Epicuro e de Spinoza! -, nós que preferimos o conhecimento à interpretação, a história à genealogia (e a pergunta "o que é?" à pergunta"quem?"!), nós que nunca nos achamos demasiadado humanos [...] nós que não queremos sobretudo não! - ultrapassar o homem, nós que desconfiamos da embriaguez e das paixões, nós os apolíneos, nós os civilizados, nós que tentamos ser mais ou menos morais (sempre entre o bem e o mal!), nós os inimigos dos malvados e dos sofistas, nós os amigos da sabedoria e da gente boa, nós que nos esforçamos por ser bons, justos e verídicos - por que seríamos nietzscheanos?" Expressão da mais recente guinada no solo da filosofia francesa, a coletânea reúne autores cujo tipo emergente convém sublinhar, diante das cortes filosóficas reinantes. Embora diferenciados por condutas teóricas individuais, convergem no traçado de uma nova postura comum, ascendendo do envolvimento adstringente com as idéias nietzscheanas -para-dogmática suprema e sufocante nas últimas décadas - à explícita rejeição crítica das mesmas. O próprio lema que adotam - "pensar com Nietzsche contra Nietzsche" - antes cautela diplomática do que critério analítico, mas não apenas, demarca as pontas do itinerário que viveram enquanto membros de uma geração intelectual que começou a se formar nos anos 60, portanto sob as cangas e derivações hipertróficas da "filosofia do martelo", lineamentos debaixo de cuja perspectiva se perfilaram por muito tempo, mas aos quais, em graus diversos, vêm denunciando agora como esgotados, insuficientes e errôneos, no mínimo porque, tal como dizem Ferry e Renaut na Apresentação, "a filosofia não está destinada ao exercício infinito da desconstrução" e de várias maneiras "retoma a exigência ancestral de racionalidade". De fato, para os autores deste livro, hoje, o combate estruturante é armado pela demanda de racionalidade contra a desrazão das filosofias da diferença. Por essa linha se distribuem os textos. Do mero apelo à racionalização, ao "bom uso" da obra d Nietzsche, feito por Raynaud, que se diz amparado e estimulado pelo exemplo de Weber, mediando pela instrutiva reflexão de Descombes a respeito do advento "nietzscheanismo à francesa", cujas respostas aos problemas ideológicos e culturais do tempo presente "devem ser rejeitadas, porque filosoficamente incoerentes [...] mal concebidas e em termos inutilmente amaneirados ou desesperadamente confusos", que compõe "uma vaga orientação geral expressa por fórmulas como 'descentramento do sujeito', a leitura 'sintomal' da linguagem, a crítica da 'falsa consciência'". A exigência de racionalidade passa também pela contribuição de Legros, que recusa energicamente a metafisica da vida de Nietzsche, cujas ambíguas criações conceituais, partindo da oposição entre o pensamento natural (o pensamento e a ação como processo sem sujeito) e o pensamento consciente levam de volta a todas as distinções da metafisica tradicional, sem a consistência e o valor racional que a melhor parte desta sempre exibiu; o rumo das exposições é integrado ainda pelo texto de Boyer, cujo imperativo - é preciso parar de interpretar Nietzsche e tomá-lo ao pé da letra - é irrepreensível, se bem entendido como a necessária anterioridade do compreender (análise imanente ou estrutural) em relação à interpretação a partir do qual interroga o "valor operatório ou analítico, e não apenas profético, dos conceitos especificamente nietzscheanos", pondo em evidência a "obsessão anti-igualitária de Nietzsche na sua contraposição à "vontade de saber", tomada enquanto possibilidade do nefasto. Culmina o fluxo crítico da obra na opulência dos ensaios de Comte-Sponville e Taguieff, os dois mais abrangentes e elaborados da coletânea. O primeiro aborda e promove a demolição dos temas mais caros a Nietzsche: noções como as de super-homem, eterno retorno, vontade de potência e transmutação os valores são cuidadosa e competentemente investigadas e refutadas, ao mesmo tempo em que seu autor confessa que compartilhava com Nietzsche o essencial de suas recusas, mas que lhe repugna totalmente o que existe. (no conteúdo) demais propriamente nietzscheano - por que diz não aos homens reais e especialmente não à moral, não à cultura, não à história, não à humanidade do homem. Por sua vez, Taguieff, com destreza e descortino, trafega pelas malhas do pensamento tradicionalista, desde Louis de Bonal de DonosoCortês, passando por Maurras, até o entroncamento com Nietzsche, que parece como o fundador de uma segunda tradição do pensamento tradicionalista radical, cuja herança intelectual e política só surgirá na primeira metade do século XX. Deste segundo tradicionalismo anti-moderno, os herdeiros parciais, nos dois sentidos, serão legião entre os filósofos e os literatos: Spengler e Évola, Edouard Berth e Drieu Ia Rochelle, Leon Chestov, Cioran... e Heidegger, evidentemente. Segundo tradicionalismo nutrido pelo nacionalismo integral e pelo voluntarismo belicoso. Ambos, Comte-Sponville e Taguicff, nos lineamentos mais vigorosos de seus argumentos, independentemente de diferenças de fundamento e perspectiva, fazem lembrar os melhores e mais pertinentes aspectos da ampla crítica de Lukács ao irracionalismo alemão em geral e a Nietzsche em particular, realizada nos idos de 50. Sim, a recusa e o combate à herança nietzscheana não está começando agora... O conjunto crítico de POR QUE NÃO SOMOS NIETZSCHEANOS é sem dúvida um lenitivo, na enxurrada nietzscheano-heideggeriana ainda em voga dominante; enquanto tal faz juz a acolhimento pelo contraste que proporciona e pelo serviço que presta. Todavia, não sem que fique assinalado seu próprio limite crítico, circunscrito pelo fundamento neo-racionalista, que obriga e é obrigado a se acantonar no interior mesmo das estreitas fronteiras do liberalismo social-democrata. Limites que, porém, favorecidos pelas mazelas, aventuras e descaminhos, práticos e teóricos, de certos marxismos vem permitindo que Marx seja incluído no roldos mestres da suspeita (Ricoeur), em botando com isso, por longo tempo, a possibilidade de uma efetiva crítica ad hominem no exato momento em que a deformação e a mutilação dos homens atingem nível sem precedente, para o qual a sofistica nietzscheana - centrada no ceticismo mito-maníacodo não há fatos, só interpretações - e sua correlata estética da mentira são o canto dionisíaco de confirmação e justificativa. J. CHASIN

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    Luc Ferry

    Filósofo francês, professor de filosofia e político do partido Union pour un mouvement populaire (UMP). Foi Ministro da Educação Nacional, França, sob o governo de Jean-Pierre Raffarin de 2002 a 2004.

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    Luc Ferry