Lido entre 06 e 16/06/2021. Avaliação da leitura: 3,8/5,0
Manuel da Costa Pinto (doravante MCP) é jornalista cultural e atua principalmente no campo literário. Os textos desse volume apareceram antes em prefácios, jornais (especialmente Folha de São Paulo), revistas diversas etc., a imensa maioria entre os anos de 2000 e 2009. Quanto ao título, ele escreve sobre Dostoievski: Em seus romances, não existe mundo externo, somente paisagens interiores. Ideia que está mais bem explicitada (ou complicada, depende) numa resenha que fez anos atrás (em 2004, na FSP) sobre Nonada, livro de poesias de Rodrigo Garcia Lopes. Paisagem interior seria a evocação de uma esfera de realidade inalcançável, que viola as determinações objetivas do mundo empírico e que pode apenas ser entrevista pelas frestas da linguagem poética (que nos fala sempre de um mais-além), [e] corresponde a uma concepção de literatura vista como uma espécie de xamanismo que cria novas percepções de tempo e espaço. Entendeu?
Tem mais: a respeito de Albert Camus, outro de seus escritores favoritos além de Dostoievski, MCP registra acerca do diário de viagem do escritor, no relato sobre sua passagem pelo Brasil: Na geografia pessoal de Camus, o Mediterrâneo é aqui. Mesmo que cidades e países sejam mencionados aqui e ali, não se trata de uma geografia real, mas de lugares imaginários em que ocorrem situações que o poeta testemunha como um "flâneur", como viandante que vai anotando as mitologias inscritas no cotidiano: "Carros avançam em nossa direção: eis o épico contemporâneo. Ítaca na esquina, Odisseu o mendigo lendo um anúncio travado no chão", diz MCP transcrevendo parte de um poema do mesmo Garcia Lopes (FSP, 2004). Portanto, existe a geografia exterior, que pertence ao mundo real e a paisagem interior, que reside na mente do poeta (ou onde sua mente reside), do escritor, seja o Garcia Lopes de Nonada, seja Dostoievski, Camus, Aldous Huxley, Jean-Paul Sartre, Clarice Lispector, Dalton Trevisan e demais autores que MCP trata aqui.
Paisagens Interiores e Outros Ensaios tem prefácio escrito pelo próprio MCP no qual ele discorre sobre o que é ensaio, gênero literário criado por Montaigne e é dividido em cinco partes. A parte I é dedicada a Dostoievski; a segunda a Camus; na terceira parte MCP discorre sobre outros escritores estrangeiros notáveis, na quarta, se dedica à análise de algumas obras de autores brasileiros e na quinta e última parte escreve sobre duas outras paixões além da literatura: futebol e cães. Quanto a Dostoievski sobram elogios acerca de sua obra; digamos assim que para MCP ele seja o grande pintor (ou fotógrafo) de paisagens interiores da literatura mundial. Mas o destaque vai mesmo para quatro livros fundamentais do russo: O Idiota, que talvez seja a mais complexa personagem de Dostoievski: o príncipe Michkin, e prossegue: Crime e Castigo é um romance policial estruturado a partir de uma espécie de assassinato filosófico (o herói, Raskolnikov, comete o crime para provar sua superioridade moral); Os Demônios é um retrato das disputas ideológicas no seio de um grupo de revolucionários; Os Irmãos Karamazov é um drama familiar tecido ao redor do tema mítico do parricídio. No último ensaio dessa primeira parte, Duas Faces do Romance Russo, MCP estabelece algumas relações entre Dostoievski e aquele que é chamado de seu duplo literário, logicamente Leon Tolstoi.
Albert Camus, nascido na Argélia, mas considerado quase sempre um autor francês, e mesmo franco-argelino, ocupa ainda mais páginas do que Dostoievski nesse livro, toda a parte II dele: são nove ensaios sobre o autor de O Estrangeiro, A Peste, A Queda, o Mito de Sísifo, O Homem Revoltado e O Primeiro Homem, livros sobre os quais MCP se detém com mais vigor. Também fala de sua obra teatral e de seus contos. Camus é um romancista e ao mesmo tempo um pensador, um ensaísta, mas não um filósofo, ainda que tenha participado do movimento existencialista em seus inícios. Sua ficção e seus ensaios filosóficos apresentam certa circularidade, certa continuidade, como aponta MCP ao destacar o tema do absurdo (noção existencial, mas não existencialista, não sartriana), presente tanto nas aventuras de Meursault em O Estrangeiro quanto em O Mito de Sísifo, no qual Camus afirma ser o sentimento do absurdo aquilo que define a condição do homem, dilacerado entre seu desejo de durar e seu destino de morte. A vida é, pois, trágica e absurda, um mal-entendido, que é também o título de uma de suas peças (O Mal-Entendido). Além de estudar brevemente cada um dos livros que Camus escreveu MCP também trata da polêmica que ele travou com Sartre, causadora do maior distanciamento entre os dois e que teve origem especialmente com a publicação de O Homem Revoltado, em 1951. MCP explica o que aconteceu, mas para quem quer mais detalhes sobre essa polêmica, recomendo ler No Café Existencialista, de Sarah Bakewell. O último ensaio sobre Camus trata de outra polêmica, bem detalhada, dessa vez com Roland Barthes, em 1955 e envolveu o livro A Peste. Para Camus um romance, para Barthes apenas uma crônica, a meio caminho entre a história e o romance.
A parte III, Outros Estrangeiros, traz quinze ensaios bastante diversos entre si. Eles são: O Paraíso Perdido do Romance Filosófico (romances escritos sobretudo por Voltaire, Camus e Sartre); Páginas Luxuriosas: a Literatura Erótica da Antiguidade à Sociedade do Espetáculo (destaque para o Marquês de Sade); Loucos, Lunáticos e Desvairados (personagens de Shakespeare: rei Lear, Macbeth, Hamlet, Ofélia; de Cervantes: Dom Quixote; de Machado de Assis: Simão Bacamarte; de Herman Melville: Bartleby); Pascal e Tolstoi: o Inumano (negação do humano e glorificação do divino); A Aversão Divina de Tolstoi: Sonata a Kreutzer e Últimos Escritos; Nexos Ocultos: Nadja, de André Breton; Fuga Agnóstica: As Portas da Percepção & Céu e Inferno, de Aldous Huxley; Onde se lançam livros às chamas: Fahrenheit 451, de Ray Bradbury; Nomadismo Como Libertação: Bodenlos, de Vilém Flusser; O Inferno Burguês: Entre Quatro Paredes, de Sartre; O Conhecimento Proibido da Psicanálise (basicamente Sade, Freud, Roger Shattuck); Uma Temporada no Inferno (sobre o Holocausto: Ron Rosenbaun, Trevor-Hoper, George Steiner, Claude Lanzmann); O Fetiche do Autor e a Voz do Ventríloquo (falsificações e plágios); Verdades e Mentiras (fraudes literárias: Fragmentos, de Binjamin Wilkomirski); Tarefa da Crítica (fazer a mediação entre autor e público).
Na parte IV temos literatura (e crítica) brasileira em dez ensaios, a saber: Emancipação e Colapso: Um Panorama da Prosa Brasileira (um bom resumo geral de nossa literatura); Literatura a Contragosto: Angústia, de Graciliano Ramos (para MCP o mais audacioso romance de Graciliano, com ecos de Crime e Castigo); O Universo em Miniatura de Dalton Trevisan (livros e contos do autor curitibano); O Espanto Inexplicado: Clarice Lispector em Brasília (a cronista vê a capital em1962 e depois em 1972); Arte da Conversação no Armazém de Zé Paulo (sobre o tradutor, ensaísta e poeta José Paulo Paes); Núcleos de Inteligibilidade: Por Trás dos Vidros, de Modesto Carone; Lumpesinato Existencial: Subúrbio, de Fernando Bonassi; Amor Entre Ruínas: O Filho da Mãe , de Bernardo Carvalho; Trânsito de Duplos: A Cidade Ilhada, de Milton Hatoum; O Espelho Crítico de João Alexandre (elogio ao crítico João Alexandre Barbosa).
Futebol, cachorros, parte V, finaliza o volume com três ensaios, dois sobre esportistas, um sobre cães: De Julien Sorel a Zico: Confissões de Um Rubro-Negro Paulista (MCP é paulista e torce pelo Flamengo; Sorel é o personagem central de O Vermelho e O Negro, de Stendhal, analogias); Prometeus da Vida Danificada (astros do futebol, dois deles com vida trágica: Garrincha e a bebida, Maradona e as drogas); Livros Pra Cachorro (várias obras em que os cães não são personagens antropomorfizados, mas eles mesmos: Da Dificuldade de Ser Cão, Roger Grenier; Flush Memórias de Um Cão, de Virginia Wolf; Niki A História de Um Cão, de Tibor Déry; Patas na Europa, de Antonio F. Costella; Timbuktu, de Paul Auster). A esses ensaios finais seguem as fontes consultadas e um índice onomástico. Mas finalizo com um divertido trecho do livro Timbuktu, acima citado:
"E apesar de tudo isso, Mr. Bones era um cachorro. Da ponta do rabo até a extremidade do focinho, era um puro exemplo do Canis familiaris, fosse qual fosse a presença divina que se havia abrigado dentro da sua pele, ele era antes e acima de tudo aquilo que parecia ser. Sr. Au-Au, Monsieur Uôf-Uôf, Sir Vira-Lata. Conforme dissera muito bem um gaiato em um bar de Chicago, quatro ou cinco verões antes: 'Quer saber qual é a filosofia de vida de um cachorro, meu camarada? Vou explicar qual é. Basta uma frase curta: se uma coisa não dá para comer nem para foder, mije em cima dela'". Pois é...