Estaticamente, a “literatura” defini-se, em primeiro lugar, pelo pequeno número daqueles que a ela tem acesso, e a este nível, o “letrado”, o homem “culto” continuam, como no passado, a opor-se ao homem do povo que, não participando na mesma herança cultural, é, por isso, considerado como não tendo “cultura”. Esta característica aparece com nitidez, por um lado, ao nível sociológico, pelo facto de a literatura ter constituído durante muito tempo a matéria essencial de um grau de ensino – o ensino secundário – reservado a uma classe de privilegiados, por oposição ao ensino primário ou primário superior, e, por outro lado, ao nível ideológico, nesta tendência para apresentar qualquer forma de difusão de massa – Best Sellers, imprensa diária, meios de comunicação – como pouco compatível a qualidade própria das verdadeiras obras. (p. 30-1)
“Enquanto signo, a cultura literária permite distinguir aqueles que pertencem às classes dominantes e aqueles que dela estão excluídos” (p. 34).
Definir uma criação artística enquanto contraliteratura significa levar em conta a opção do autor em recusar publicamente ou estilisticamente os modelos literários oficiais e atentar para o campo da leitura, na medida em que assim também pode ser considerada toda produção literária que atinge um público maior do que os consumidores das belas artes, mas que é marginalizada como cultura de massa.