Quando eu tomei conhecimento desta obra, e me deparei com a sinopse que apresentava, bem como a temática apresentada no livro, logo pensei que iria ler uma história bem escrita, com um texto espetacular, recheado de contexto histórico (particularmente meu aspecto favorito nos livros). Não me enganei mas também não correspondeu às minhas expectativas, pois o livro é repleto de momentos mais baixos do que de altos, o que prejudica a experiência da realização da leitura e faz com que o leitor o abandone.
O Mundo Alucinante, na verdade, não se constitui numa história autoral, porque o romance é fruto de uma pesquisa realizada pelo autor, o que vai se evidenciando ao longo da narrativa. Logo na introdução, Arenas alerta que a obra em questão pode ser tratada como um romance ou como uma biografia ou ainda as duas coisas ao mesmo tempo. Não lançando mão de, por vezes, transcrever documentos na íntegra, sua dita magna obra, para um leitor sem experiência, pode fazer com que ele abandone a leitura.
A trama é baseada na vida e obra do eclesiástico Frei Servando Teresa de Mier, desde a sua infância, em Monterrey, no México, o qual Arenas pinta como uma infância dura, difícil, austera. Intentando mudar sua situação, Mier resolve entrar para a vida eclesiástica e migra para a capital. Depois de algum tempo, Frei Servando fica encarregado de um discurso sobre Nossa Senhora de Guadalupe, padroeira do território mexicano. Durante a preparação para a sua oratória, um outro eclesiástico oferece a macabra ideia de apresentar a história da imagem sob uma outra perspectiva, contrária ao que a Igreja pregava, fato que acaba por se concretizar, e, por conseguinte, a prisão do Frei.
Enclausurado em um calabouço, Servando é tratado da forma mais cruel possível e transferido para a sede do império espanhol, Madri. No entanto, a embarcação que transportava o condenado sofre infortúnios no meio do caminho, causando a fuga de Mier, o que se constitui no fio condutor da trama, bem como o conhecimento de outras capitais, o que faz com que o eclesiástico tenha, por vezes, um choque cultural. De Monterrey a Madri, de Paris até Lisboa, Servando Teresa se impressiona com a alucinação do mundo.
O texto da trama é muito irregular, pois em vários momentos é perceptível a falta de experiência do autor em segurar descrições de lugares, de situações, evidenciando seus tenros vinte e três anos de idade. Quanto ao sentimento latino, que várias vezes é impresso ao personagem do Frei, o autor lança mão de fazer críticas bem metafóricas ao regime castrista que estava vigorando em Cuba (não podemos nos esquecer do ano da publicação do livro, 1966), se sobressaindo nesses momentos e se constituindo em um dos pontos altos do livro. O Frei presencia momentos importantes da história como a Revolução Francesa, a independência do México e a emancipação dos Estados Unidos, mas que no livro, devido à escrita cheia de altos e baixos, pode passar despercebido até pelo leitor mais atento.
A edição do livro também não é das melhores. Com uma leve escurecida nas páginas, com uma capa também escura, pode fazer com que o leitor não tenha uma das maiores experiências ao realizar a leitura dessa obra (particularmente a diagramação da Record é uma das minhas favoritas, mas quando a história é sombria demais os editores pesam a mão). Somado a isso, o texto enfadonho, na maioria das vezes, e uma história um pouco arrastada faz com que a sensação de agradabilidade na leitura acabe por quase não existir.
Quanto aos personagens, percebo que é realmente nesse ponto que o livro trata-se mais de uma biografia do que um romance, porque se trata apenas da narração da trajetória de Frei Servando de Mier. É aqui que se encontra o calcanhar de Aquiles de toda a obra, pois Arenas não apresenta um argumento convincente para justificar sua escolha, a não ser de que o autor possui vários pontos de identificação com a vida do religioso. Isso é perdoável, mas à obra faltou uma explicação, uma breve apresentação de quem foi Servando Teresa de Mier e porque ele é uma figura importante na história da América Latina (e incluo o Brasil aqui).
A estrutura da narrativa também não ajudou muito, pois, ocasionalmente, Arenas fazia algumas escolhas muito incompreensíveis, a exemplo de uma parte que ele opta por apresentar a fuga do frade em verso, o que não consegui compreender, e algo mais grave é que não é apresentado uma nota de rodapé, sendo sem dúvida um dos momentos mais baixos do romance. Foi a partir desse ponto que a experiência da leitura com o autor cubano começou a descer depressa na agradabilidade, aspecto que mencionei anteriormente.
Sinceramente, a despeito dos pontos negativos (e muitos) que levantei, não acredito que O Mundo Alucinante não é um livro ruim. Muito pelo contrário. É um livro que, antes de você ler, deve dar uma pesquisada sobre o autor, sobre o contexto de produção da obra, bem como sobre o personagem que o livro apresenta. Mas confesso que o livro poderia ser bem melhor estruturado, melhor escrito, escolhas com justificativas um pouco mais sólidas, a começar pela escolha do personagem. Um pouco menos de descrição da documentação da época poderia fazer da obra uma das mais inesquecíveis do autor, a exemplo de Antes que Anoiteça (e inclusive recomendo que conheça Arenas por essa obra), aquela sim, a obra de Arenas. Mas infelizmente acabou por entregar uma experiência antônima, uma grande lástima.