Mais um poema do heterônimo Alberto Caeiro, criado por Fernando Pessoa! É uma poesia simples, curta, mas bonita! Estou, ultimamente, muito viciada em ler Fernando Pessoa e, após terminar essa leitura, eu tinha que fazer uma resenha sobre ela.
A obra não tem um começo específico, com local, ano ou nomes; ela simplesmente começa... e isso a torna tão especial. Ela faz com que, lentamente, nos acostumemos a acompanhar a história de um casal. Nessa obra, Alberto encontrou o amor, e isso muda o seu mundo de ponta-cabeça. Aquela visão que vemos em O Guardador de Rebanhos é totalmente quebrada no início. A princípio, vemos apenas um homem apaixonado e tolo. Pois o amor nos torna assim, tolos!
Após isso, percebemos que não é bem assim: ele luta o tempo todo contra a sua natureza de apenas observar o mundo e não senti-lo, pois sentir significa procurar significados, e é isso que ele mais odeia. Ele prefere uma vida simples, apenas em contato com a natureza.
III.
"Agora que sinto amor
Tenho interesse nos perfumes.
Nunca antes me interessou que uma flor tivesse cheiro.
Agora sinto o perfume das flores como se visse uma coisa nova.
Sei bem que elas cheiravam, como sei que existia.
São coisas que se sabem por fora.
Mas agora sei com a respiração da parte de trás da cabeça.
Hoje as flores sabem-me bem num paladar que se cheira.
Hoje às vezes acordo e cheiro antes de ver."
Depois disso, percebemos uma coisa crucial: ele não esqueceu sua natureza. O amor o mudou; mudou seus ideais, opiniões e visões de mundo. Mas ele começa a perceber que isso está errado. Será que um homem com uma natureza tão simplória, que odiava as visões indagativas da sociedade e rejeitava sentimentos como o amor, poderia sentir? Pois sentir não é ver a coisa verdadeira, mas atribuir um significado ao ser.
"Não sei o que hei-de fazer das minhas sensações,
Não sei o que hei-de ser comigo."
Ele começa a idealizar e, cada vez mais, torna-se um homem apaixonado. Pensa nela constantemente, mas, quando chega à realidade, trava. Ele chega a cogitar apenas querer tê-la em pensamento. Ele não entende o amor.
"E eu gosto tanto dela que não sei como a desejar"
E então ele percebe: não consegue compreender o amor, não entende o que é um sentimento. O mais incrível desse heterônimo é que ele não escreve com sentimentos. Ele não é um poeta qualquer; escreve com o pensamento, refletindo de modo simples sobre as coisas da vida. Então, se ele não sente, não a ama? Pois amar é sentir e, se ele não sente, não a ama. Mas não é bem assim. Ele sente que a ama com toda a intensidade, porém com toda a intensidade do pensamento.
"Amar é pensar"
No final, percebemos que era um amor não correspondido; ele idealizou tudo aquilo. Voltando a ser o mesmo de antes, um homem fiel à sua natureza, ele fala um dos trechos que melhor resumem a obra:
"Talvez quem vê bem não sirva para sentir
E não agrade por estar muito antes das maneiras.
É preciso ter modos para todas as cousas,
E cada cousa tem o seu modo, e o amor também.
Quem tem o modo de ver os campos pelas ervas
Não deve ter a cegueira que faz fazer sentir."
Enfim, termino esta resenha desse incrível poema, curtinho e lindo, e vejo agora que talvez Alberto se torne o meu heterônimo favorito, mas eu ainda tenho que ler os outros. (Obs.: meu sonho é ser algum dia amada como Alberto amou essa mulher 🥹).
Dou nota 4,5, pois o meu favorito continua sendo O Guardador de Rebanhos, mas este merece, com certeza, 5. Se você se interessar e, não sei, em algum momento, ler Alberto Caeiro, para entender melhor o estilo dele, comece por O Guardador de Rebanhos. É incrível e, após lê-lo, leia este. Você não vai se arrepender!