Chove nos Campos de Cachoeira (Ciclo do Extremo-Norte #1) -

    Dalcídio Jurandir

    CEJUP
    1995
    294 páginas
    9h 48m
    ISBN-1: 0
    Português Brasileiro

    Trecho da obra: "Sim, como veio tão bela! Perdera aquela brutalidade, aquele riso, aquele desleixo. Veio calma na sua marcha para a maternidade. Eutanázio abriu mais os olhos. Ninguém ficou na saleta. Desejou passar a mão naquele ventre que crescia vagaroso como a enchente, com a chuva que estava caindo sobre os campos. Desejaria beijá-lo. Está vendo ali a criação, a Gênesis, a Vida. Via nela qualquer coisa de satisfeito, de profundamente calmo e de inocente. Não dava mostra nenhuma de sofrimento, nem de queixa nem de ostentação. Era como terra no inverno. Seu ventre recebeu o amor uma terra. Como a terra dos campos de Cachoeira recebia as grandes chuvas. Por isso ela já humilhava-o de maneira diferente. Tinha sido falada em Cachoeira, enganada, traída,e não mostrava senão a aceitação do filho como um triunfo. Tinha um filho, tinha um filho, seu ventre estava alto e belo. E ele no fundo da rede ia morrer sem aceitar a morte, sem ter aceitado a vida. Quando podia se reconciliar com ela, a serenidade daquele ventre humilhava-o, cobria-o de ridículo. Irene estava mansa, sorria para ele com um sorriso de ser fecundado, de criatura que renova em si mesma a vida. Irene restituíra-se a si mesma. O sorriso dela era manso e nascia de seu coração como luz de amanhecer. Quanto ele não souber sofrer! Morria miserável, ridículo,com aquele medo na entranha, nos ossos. Diante de Irene queria se encher duma coragem imensa para aceitar o seu destino. Irene era o Princípio do Mundo. As grandes chuvas lhe traziam o filho. Seus peitos cresciam, se enchiam de leite como os das vacas. Ela era tão magnificamente animal, que em seu rosto calmo, em seu ventre, em suas mãos só havia inocência, a inocência de todo o mistério criador. Só ela era a vida! Só ela era a vida!" *** “Um Noé desconhecido. Um livro estupendo. Vieram juntos do Pará, trouxeram aquela gente, aquelas paisagens, a vida de um pedaço do Brasil – a vida vivida. A fôrça de Dalcídio Jurandir está realidade que ele foi encontrando em longas viagens pelo interior, no contato da sua juventude com a natureza e as criaturas presas a ela. Não é um autor que escreve. É um homem que fala.” - Álvaro Moreyra, poeta, cronista e jornalista. “Uma Obra da maior importância pelo conteúdo humano e a denúncia de uma determinada situação social.“ - Herberto Sales, jornalista e escritor.

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    jeovanareis picture
    jeovanareis31/05/2020Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    To bem feliz em ter terminado esse livro, fico feliz por ter tido esse primeiro contanto com a literatura paraense. O Dalcídio Jurandir é o um ator tão aclamado mas que passou despercebido por muitos, inclusive por mim. Muito interessante poder me identificar com as historias que se passavam no interior do Marajó pelo livro, me trouxe uma memória afetiva muito boa do interior dos meus avós. Muitas histórias e expressoes me retomaram a esse lugar! O livro retrata muito bem a desigualdade social, a luta que muitos cidadãos ainda enfrentam hoje em dia. É absurdo como, mesmo depois de tantos anos de escrito, a história ainda vive e pode ser vista em muitos lugares do Pará, pois a miséria ainda é uma triste realidade. Ahh e adorei essa edição pois no final tem um dicionário de expressões paraenses que eu nem sabia que existiam, mostrei para meu pai e rendeu boas risadas dele relembrando dessas palavras! Sinto muito orgulho de morar em um estado tão rico em cultura como o Pará ??

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