Investigação da Origem
Há quatro anos, Alckmar Santos estava na casa de um amigo, em Belo Horizonte (MG). Ouviu um estrondo. O som era da morte: um adolescente tinha se jogado no vão do 12º andar. O triste destino do garoto acabou inspirando as linhas iniciais de Ao Que Minha Vida Veio..., obra com o qual Alckmar venceu o Concurso Salim Miguel 2011 de Romance, promovido pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e que será lançada hoje, na Capital. O lançamento está marcado para as 19h, na Sala Aroeira do Centro de Cultura e Eventos da universidade, durante o Simpósio Internacional de Cibercultura da Associação Brasileira de Pesquisadores em Cibercultura (Abciber). Foi depois da trágica cena que o escritor começou a pensar na sua história, e na história de sua região – ele é de Silveiras, no Vale do Paraíba (SP). A partir daí, o personagem principal, que narra o livro em primeira pessoa, é alguém atrás de suas origens. O ano é 1932. O narrador foi criado por pessoas velhas demais para serem seus pais. Sua família é uma família rica, de cafeicultores. Certo de não saber quem são o pai e mãe biológicos, o protagonista vai em busca da verdade. É uma investigação densa, em que acompanhamos a mente do filho. Informações surgem aqui e ali. Podem ser pedaços resgatados de um passado distante, antes mesmo do nascimento do narrador. Outros personagens também iluminam passagens, fatos que podem trazer alguma nova peça. Cada nova revelação transforma a consciência do narrador, e o leitor é convidado a acompanhar essa mudança. Ao Que Minha Vida Veio..., como o próprio nome sugere, tem a ver não apenas com o nome do escritor, mas com alquimia: o personagem também recorre aos processos alquímicos e mágicos para responder sua questão. O livro passa pela história do país naqueles tumultuados anos 1930. E há algo de pessoal, claro, no caminho que leva à verdade. O livro é ambientado em Silveiras, as memórias de infância do autor estão presentes nessas 200 páginas. Por conta de sua pesquisa em cibercultura – além de professor de Literatura Brasileira, ele é coordenador, há 16 anos, do Núcleo de Pesquisa em Literatura, Linguística e Informática da UFSC –, Alckmar usou softwares de edição de imagens e de geolocalização para identificar elementos da região referenciada, com estradas, nomes de bairros e cidades. Fluxo de pensamento e o falar da região O estilo da prosa deve muito à poesia. Era essa mesmo a proposta do escritor, que até 1999 se dedicou apenas aos versos. Mesmo proseando, não esquece a paixão inicial. É um escrever singular, feito de fluxos de pensamento e do falar da região, as histórias que ouviu do pai e dos avós – ritmo, vocabulário, imagens, tudo tem o sabor vale-paraibano. Os fluxos de palavras jorram à moda faulkneriana, e há a herança de autores brasileiros, ecos de Euclides da Cunha, Graciliano, a Lavoura Arcaica de Raduan Nassar e de Guimarães Rosa. O romance está disponível no site da Editora da UFSC (www.editora.ufsc.br), fazendo a estreia do projeto de digitalização de obras de acesso público e gratuito. Sempre transitando entre a escrita para formato impresso e meio eletrônico, o autor apresentará, durante o lançamento, a criação digital multiartística Volta ao Fim, elaborada com o artista Wilton Azevedo. Na primeira semana de fevereiro, a editora lança a obra em Silveiras, a cidade onde as linhas de Ao Que Minha Vida Veio... foi ambientada.

