Esta obra enfatiza especialmente o enraizamento da filosofia de Wittgenstein na vida prática que se impõe, entre outras coisas, por meio de um modo especial de trabalho filosófico. Em termos de conteúdo, o pensamento de Wittgenstein se distingue sobretudo por tratar seriamente os problemas das ciências exatas, sem perder a distância crítica diante deles.
Compreender Wittgenstein -
Kai Bucholz
Uma mão na roda!
Confesso que senti um grande mal estar quando li, pela primeira vez, o "Livro Azul" de Wittgenstein. Não há divisões, não há paradas, não há conclusões definitivas... sem espaços para respirar ou linhas sequenciais, é uma obra para ser lida como que de uma tacada só. Cada um dos temas discutidos são conectados pelo nexo de um movimento que valoriza os meios em detrimento do fim, isto é, as premissas em detrimento da conclusão. Digo isso porque a linguística de Wittgenstein toma como objetivo explicar a língua no ato de seu uso, não como uma coisa estática e intransigivel, mas como uma forma dinâmica de expressão. O professor Kai Buchholz faz um ótimo trabalho em elucidar a metodologia de Ludwig Wittgenstein, apelando para uma composição textual que abrange um estudo holístico. Somos expostos, durante a leitura, à biografias, preceitos e problemas matemáticos, abstrações filosóficas, analogias psicológicas e observações psicanalíticas, considerações da lógica e até mesmo uma apresentação às confissões de Wittgenstein em um período conturbado de sua vida. Essa articulação universal do sujeito a quem chamamos "Wittgenstein" exprime muito mais que apenas uma doxografia de um filósofo, levando-nos a se relacionar com toda uma forma de ponderar e deliberar sobre o objeto que mais está propenso a sofrer as vicissitudes do 'fenômeno', a saber: a linguagem! Me refiro ao ensaio de Buchholz dessa forma porque engendra uma tentativa de capturar cada passagem do movimento do pensar o fenômeno linguístico, circundá-lo de tal forma que possamos enfim compreender que sua essência é a mudança constante e irrevogável. É aí que vemos o brilho de Wittgenstein, onde saboreamos a sensação de aproveitar o momento enquanto acontece. "Compreender Wittgenstein" nos ajuda a reduzir o prejuízo de acreditar que toda a filosofia versa sobre conclusões sólidas e imediatas, levando-nos a observar como o mecanismo do pensamento pode se expressar de formas muito mais diversas. Partes da Obra: 1) Introdução: Buchholz expõe o que, para mim, é o fundamental em toda análise da filosofia de outrém, a saber, o "método" de Wittgenstein; isto é: transformar os problemas epistemológicos (do cotidiano, da ordem de relação sujeito-objeto) em expressões linguísticas. 2) Fundamentos da Lógica e Matemática: um momento complexo do texto, mas que se bem compreendido revela ao leitor a chave para entender a filosofia. Nesta parte é rememorada uma situação de vida de Wittgenstein, quando ele empreendeu seus esforços em resolver uma espécie de paradoxo matemático (antinômia dos conjuntos de Bertrand Russell) que iniciou-se na filosofia de seu professor, levando-o a engendrar a tese das "regras", com a qual aniquilou o problema por meio de uma redução ao absurdo. Esse esforço, por curioso que pareça, constitui o caráter de Ludwig Wittgenstein, pois são esses os tipos de conclusão que ele comumente engendra: vez ou outra uma constatação firme, frequentemente um princípio de mobilidade e transformação. Os que querem ler suas obras devem estar cientes disso. 3) Fundamentos da Teoria do Conhecimento e da Psicologia: novamente o texto se mostra curioso neste momento, pois Buchholz expõe algo que causa uma certa surpresa ao leitor: É aqui que Wittgenstein vai desenvolver um terreno mais firme de filosofia, e não na matemática! Isso porque surgem algumas teses que tendem a apontar para o fato de que pensar é um ato que se expressa com certa imediatez, e por isso não está fundamentado na consciência. Dessa forma Wittgenstein desmancha as correntes do Individualismo (a teoria do conhecimento que atribui o conhecer a consciência individual - Solipsismo, Idealismo, etc.) e a própria visão de consciência da Psicologia e Psicanálise (pois pressupõem a existência de um subconsciente), isto porque outrora disse: "pensar é operar com signos", ou seja, quando escrevemos pensamos com as mãos, quando falamos pensamos com a boca, quando imaginamos, lembramos ou tomamos uma atitude, simplesmente pensamos. 4) Linguagem e Significado: parte que unifica toda a filosofia de Wittgenstein, combinando a tese das regras, com a do pensamento, com a dos signos e por aí vai. Estabelece os principais termos da obra do autor. 5) Ética e Estética: apresenta a consideração que Wittgenstein tinha sobre tais termos, revelando alguns aspectos de seus passatempos e, podemos dizer, de sua perspectiva da moral humana. Segue com as confissões que outrora enviara aos familiares e amigos. 6) Filosofia: não parece surpreendente, portanto, que Wittgenstein tome a filosofia como um instrumento para definir os termos corretamente, visto que, penso eu, a filosofia nada mais é que uma forma de contemplar isto que chamo de "método" (um movimento discursivo particular que se relaciona com as coisas). Se pensarmos assim, no escopo de Wittgenstein: filósofo é aquele que é capaz de transpor os problemas epistemológicos em termos linguísticos bem definidos.
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