"Foi agora. Agorinha mesmo. A vitamina de abacate continua lá em cima da mesa da sala. Acho que não vou conseguir tomar mesmo. Acho que também não vou conseguir comer os biscoitos que tirei do armário da cozinha. Continua caindo o maior temporal e a televisão continua ligada. Queria ficar trancado no meu quarto, igual os adultos fazem de vez em quando. Mas estou com preguiça, com o corpo todo mole e não consigo nem me mexer do sofá
E agora, vô? Você está vendo essa chuvarada aí de cima? Você está descendo que nem o submarino que continua na televisão, lá no fundo do mar? De noite, no meu quarto, você vai aparecer que nem um fantasma bom para mim? Vai avisar antes de aparecer? Vem todo dia sete? Hoje é dia sete, vô, e a tia Bela me disse pelo telefone que você morreu. E agora, vô? Como é que é morrer? Uma vez, eu me lembro, deitei na terra lá do quintal da sua casa de noitinha e fiquei olhando umas estrelas. Me senti meio sozinho, vendo aquilo tudo e achando que deve ser ruim morrer e ver todas aquelas estrelas de perto sem ninguém em volta. Será que as pessoas que morreram hoje como você estão do seu lado? Vocês vão embora todos juntos, vô? E aí, se você subiu, tá vendo o trem para Araraquara aí de cima? Ele está atrasado ou tá na hora? Se você desceu, está vendo o Japão do outro lado do mundo?
Sabe, vô, minha boca até se mexeu, mas não estou falando sozinho não. Parece que estou falando sozinho, mas não estou não. Estou é pensando sozinho, porque ninguém chegou ainda em casa. Nem sei se minha mãe ou meu pai sabem o que aconteceu. Estou aqui pensando sozinho e sem vontade de sair do sofá.
Mas aí... olha lá, vô! Perto do cesto de revistas está aquele barquinho vermelho de pilhas que você me deu de aniversário. Vou lá pegar, vô... Você sabe que eu nunca arrumei um lago ou represa para poder brincar com ele? Olha, vô, estou ligando ele. Olha o barulhinho que ele faz, mexe aquela hélice branca atrás dele. Le- vanto o brinquedo com a hélice ligada e, agora, é um barco voador. Vou andando pelo corredor e entro no banheiro. Olha lá, olha lá, vô... Olha lá a banheira! Como é que eu nunca pensei nisso?
Vô, deixei o barquinho desligado, pus em cima da pia e sentei no chão. Tapei o ralo da banheira e ela está enchendo, enchendo... Está quase cheia, quase transbordando, vô! Agora ligo o barquinho de novo, vô. As pilhas parecem estar bem fortes, o motor do barquinho está novinho. Ponho ele na banheira cheia. Ele vai para lá e para cá... aí, de uma vez só e bem devagarinho, vou afundando com as mãos o barquinho ligado. As hélices giram, giram mais devagarinho e vão parando, parando... pararam. O barquinho encheu de água por dentro. Parou de funcionar. Está afundando. Vô, o barquinho agora é um submarino."