"Sempre usei a escrita para isso. Para as coisas fazerem sentido." - Laura (p.85)
Primeira impressão? Não posso dizer que não fiquei desiludida. Não tinha lido a sinopse do livro e quando percebi que era um romance e não um dos habituais Non-Fiction da Torey, senti-me um bocado "traída". Mas a experiência tornou-se bastante interessante.
Do início ao fim não é uma história fácil de digerir. A referência a uma criança com autismo remete-me a experiências demasiado pessoais, no seu todo. Várias coisas na narrativa são semelhantes, do ponto de vista do diagnóstico deste personagem, o pequeno Conor.
"Entre os meus, aprendemos que só os cobardes magoam os mais fracos que eles. Não é obra de homens nobres." - Torgon (p.270)
A personagem principal feminina, Laura, tem uma profundidade deveras fascinante em vários pontos: o seu passado, as visões da Torgon, aquele mundo que ela criou e transcreveu para o papel, a sua personalidade alheia muitas vezes à realidade... Tudo ali encaixa de uma certa forma e a torna muito bem estruturadaz e bastante real, apesar das nuances fictícias que a sua mentalidade apresenta.
"A forma como vejo isto é que me foi entregue um cálice de ouro mas não estava destinado a ser meu. Assim, bebi dele e passei-o." - Laura (p.318)
O que me deixou mais perplexa: a forma como os filhos da Laura são relacionados à trama principal. O Conor ter assistido ao assassinato cometido pela mãe numa altura em que era ainda muito pequeno, guardando na sua cabeça pequenos pedaços do crime e transpondo-os para a realidade da única forma que consegue e sabe: como uma criança. A Morgana ligando-se à história da Torgon, tornando a criação da mãe real e transpondo as suas aparentes visões para um plano verdadeiro deu um nó no meu cérebro no momento em que me deparei com o final da história. A menina que todos julgam ter apenas uma imaginação tão fértil como a da mãe é a responsável por implantar no leitor a dúvida se Laura teria mesmo visões sobre Torgon ou se a "santa benna" afinal teria sido uma personagem real.
Perguntas por mim indagadas: Que raio de final foi aquele?? A Torgon afinal era real ou a Morgana também partilhava as visões da mãe?? Até que ponto o leitor pode sofrer um "brainstorm", seguido de um nó no cerebro por se deparar com um final que seja tão demasiado "inception" quanto este?? ... E sim, as minhas próprias perguntas espelham que me passei um bocadinho após terminar este livro, mas foi necessário. Senti-me, no fim de tudo, sem respostas. Senti-me como se tivesse sido enganada do início ao fim!Como se sempre houvesse havido algo por trás da história e eu nunca tivesse percebido até àquela ultima frase. Mas percebo, vá. Afinal de contas, se pensarmos bem...
"O mundo está cheio de coisas escondidas." - Conor (p.318)