Quando cai em nossas mãos um livro premiado, há, desde o princípio, para nós, a expectativa de se ler uma grande obra. "Águas de Clausura", livro de poesia vencedor do X Prêmio Asabeça de 2011, do escritor Edelson Nagues, é um pocket que não foge à regra. Com uma segunda edição, à qual foram adicionados novos poemas, "Águas de Cllausura" não decepciona, ao contrário: descobre-se nele uma infinidade de motivações de leitura.
É sempre bastante complicado destacar, em um livro de poemas, aqueles que têm maior apelo para o leitor, mesmo porque cada leitor é único. Porém, "Caudal", com sua imagem de grandeza e imensidão, encharca o leitor, especialmente na segundo estrofe, onde se lê um verso com o nome do livro, e o último:
"Esperança 'per se':
seres em si e nos outros.
Mãos que, assim, delineiam
um mar ainda possível."
Mas "Caudal", com toda a sua beleza, não é o ponto alto do livro. Além de belos poemas seriados como "A borboleta e o muro", que descreve a dissociação do homem contemporâneo do seu próximo, a ele somente ligado por uma fatalidade ou imagem poética (a borboleta que percorre os dois lados do muro para separar quintais antigamente unidos), há um, em especial, que somente pode ter sido escrito por um artista com absoluto domínio da palavra poética.
"Sobre tempo e memória" é um poema que ocupa dez páginas do livro em estrofes repletas de signos poéticos que dançam uns com os outros. Tem uma maçã, uma mesa, um homem, e assim por diante. Os signos vão desfilando e, ao final do longo, mas nem um pouco cansativo poema, conjugam-se como se já estivessem estado encaixados desde o início do texto, mostrando ao poeta e ao leitor que tudo já está dado: basta burilar a pena e afiar os ouvidos, porque sim, é um poema para se ouvir, ainda que com aquela voz silenciosa que recita dentro de nós o que nossos olhos compreendem.
Edelson Nagues, autor também de um livro de contos, "Humanos", promete voltar em breve com mais poesia. Que sorte a nossa!