Atlas de Nuvens é no mínimo um livro incomum. Abra um livro pela metade em sua mesa, entao pegue outro e abra ao meio por cima daquele, e repita isso até ter seis livros abertos. Esta é a arquitetura dessa preciosidade ( e que faz sentido se você já abriu um atlas - ou estudou alguns mapas na vida).
Não bastasse essa montagem, talvez para ajudar você a não se perder nessas histórias, o autor criou uma linguagem própria, e um estilo literário para cada um dos livros que gerou. O livro 1, é um diário, que se passa em meados do século XIX; o livro 2, um romance epistolar que se passa na década de 30 do século XX; o livro 3, um romance policial dividido em micro capitulos passado nos anos 70; o livro 4, uma comédia de situação, passado no início do século XXI; o livro 5, uma entrevista passada num futuro ( talvez não tão distante); o livro 6, uma fantasia épica, com linguagem quebrada, passado num Hawaii, no futuro, após um colapso das civilizações. Detalhe, que não bastasse, diferenciar os estilos da linguagem, o autor cria vocabulários e ortografias específicos para cada obra. Assim, no primeiro, há muitas palavras arcaicas; no segundo, muitas referências musicais; no quarto, muita citação literária; no quinto, muitas palavras novas, surgidas tanto por aglutinação quanto por derivação imprópria ,além da abolição do H no início das palavras; e no sexto, boa sorte com a leitura ( deixe a voz da tua cabeça ler e não se preocupe com a ortografia).
Ligando as histórias, há acasos pontuais. Pode-se dizer que cada história anterior é conhecida pelo protagonista do livro seguinte. Assim, Robert Frobisher, lê o diário de Adam; Luiza Rey, lê as cartas de Robert; Tim Cavendish, lê o romance de Luiza Rey; Sonmi assiste ao filme do Cavendish; e Zachry assiste à rogativa da Sonmi no futuro. Só isso, já bastaria para ligar um livro no outro. Mas o autor foi além: em todos os livros há a história de um povo, ou um grupo dominando o outro. E é justamente esta a temática do livro: dominação/submissão - Estaria no DNA humano? Por que isto acontece ao longo da história da humanidade? O livro quer discutir esse tema com você, e seria muito pretensioso formar uma discussão a partir de apenas um exemplo. Por isso tantas histórias, gráficas, para que você chegue as suas próprias conclusões. (O porquê de serem seis talvez remeta a Seis graus de separação - talvez)
O lance de reencarnação faz sentido, mas não necessariamente precisa ser sobre isso, embora a teoria de Zachry, no livro seis, para o caminho das almas, como um Atlas das nuvens, seja muito poética. As marcas de nascença que os protagonistas tem em comum, não são exatamente iguais , mas sim remetem umas às outras. Eu acredito que a ideia central é mostrar como acreditar no outro pode mudar/salvar a sua vida, ou até mesmo o mundo, afinal: o que é um oceano senão uma multidão de gotas.
Eu realmente indico muito, mas precisa paciência e vontade de se deixar ser carregado pela história.