No bico da cegonha (Antropologia da Política #13) - Histórias de adoção e da adoção internacional no Brasil

    Domingos Abreu

    Relume Dumará: Núcleo de Antropologia Política da UFRJ
    2002
    184 páginas
    6h 8m
    ISBN-10: 8573162791
    Português Brasileiro

    Numa viagem que nos leva das creches e tribunais do Brasil às casas dos pais adotivos da Europa, o autor apresenta questões contundentes sobre o processo de adoção. O que significa a criança brasileira para uma família adotiva na França? Como a imprensa brasileira, ávida por histórias sobre "comércio" de bebês e "tráfico" de órgãos, trata esse tipo de adoção? Que noções de legitimidade motivaram os legisladores a modificar as leis, regulando o fluxo de crianças? Qual é o argumento das "cegonhas", damas de caridade, advogados e outros intermediários que facilitam a transação? Qual é o ponto de vista das mães biológicas que procuram, assim, "salvar" os seus filhos? Sem sensacionalismo, Abreu produz um texto fascinante, repleto de dados etnográficos que mostram a adoção como disputa entre parceiros desiguais num mercado de bens simbólicos. Quer seja vista como sacrifício da mãe biológica, quer como ajuda humanitária dos pais adotivos ou transação comercial em benefício de "cegonhas" gananciosas, a adoção, na análise perspicaz de Abreu, revela dimensões surpreendentes da família e da nacionalidade no conturbado mundo contemporâneo (por Claudia Fonseca).

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    Gustavo Flores Chapacais15/05/2016Resenhou um livro
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    No bico da cegonha

    O trabalho de Abreu é importante não apenas porque mostra o processo de adoção – em especial da adoção internacional –, muito presente nos debates jurídicos, sob um olhar etnográfico e sem juízo de valor, mas também porque expõe as disputas por trás dos discursos sobre a adoção internacional. Discursos estes de um conjunto diverso de atores – “cegonhas”, advogados, juízes, parlamentares, pais adotivos, imprensa – que, cada qual com suas particularidades, tentam se legitimar no imaginário dos seus interlocutores. Podem nos fazer refletir as questões levantadas pelo autor relacionadas aos preconceitos de classe, raça e cor. Ainda que, à primeira vista, pareça se tratar de exclusividade dos brasileiros, essas representações que discriminam as crianças com base nos seus marcadores sociais também aparecem entre os adotantes estrangeiros. Esse trabalho nos abre a possibilidade de estudar mais a fundo quais as disputas por trás da legitimidade e naturalização de determinadas representações. Um exemplo para isso são os discursos dos advogados ao se surpreenderem com o fato de crianças “feias, negras” serem adotadas por estrangeiros “bonitos, louros, de olhos azuis”, já que isso se confronta com a norma produzida no imaginário – e não só neste, mas também na própria prática cotidiana – desses profissionais. Apesar de não se denominar antropólogo, mas sim sociólogo, a maior parte de seus referencias está em importantes autores para a Antropologia nacional e mundial, tais como Marcel Mauss e Claudia Fonseca, além de intelectuais que alimentam as ciências sociais como um todo, como Pierre Bourdieu. Mostra-se um investigador competente, que soube utilizar com muita propriedade teorias e conceitos consagrados nas humanidades, além de ser um excelente narrador, embora tenha, em alguns momentos, cometido a falha de fazer “rodeios” durante o texto que fazem a leitura parecer repetitiva. Há, enfim, uma atualidade teórica e metodológica no livro, apesar de transcorridos catorze anos desde a sua publicação.

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