Os homens, com efeito, não nascem cidadãos, mas formam-se como tais.
Além de ser um dos maiores filósofos de todos os tempos, Espinosa (ou Spinoza) certamente é um dos que melhor soube compor as frases de abertura de suas obras. Nesse Tratado Político, como sempre, ele começa de forma matadora: Os filósofos concebem as emoções que se combatem entre si, em nós, como vícios em que os homens caem por erro próprio; é por isso que se habituaram a ridicularizá-los, deplorá-los, reprová-los ou, quando querem parecer mais morais, detestá-los. Julgam assim agir divinamente e elevar-se ao pedestal da sabedoria, prodigalizando toda espécie de louvores a uma natureza humana que em parte alguma existe, e atacando através de seus discursos a que realmente existe. Concebem os homens, efetivamente, não tais como são, mas como eles próprios gostariam que fossem. Daí, por consequência, que quase todos, em vez de uma ética, hajam escrito uma sátira, e não tinham sobre política vistas que possam ser postas em prática, devendo a política, tal como a concebem, ser tomada por quimera, ou como respeitando ao domínio da utopia ou da idade de ouro, isto é, a um tempo em que nenhuma instituição era necessária. A originalidade da proposta de seu Tratado Político, portanto, é conceber a organização do Estado de tal forma que não se precise depender da boa vontade ou das virtudes dos homens: Um Estado cuja salvação depende da lealdade de algumas pessoas e cujos negócios, para serem bem dirigidos, exigem que aqueles que os conduzem queiram agir lealmente, não terá qualquer estabilidade. A morte impediu que o filósofo concluísse essa obra, que ficou apenas com dez capítulos completos e mais um inacabado. Ainda assim, podemos encontrar passagens muito inspiradoras e de excepcional lucidez, tal como a que fala sobre a diferença entre o conhecimento de Deus, que é uma experiência de foro íntimo, e os cultos religiosos exteriores, que muitas vezes mais nos afastam que aproximam de Deus: (...) o conhecimento verdadeiro e o amor de Deus não podem estar submetidos ao domínio de ninguém. (...) No que respeita ao culto exterior, é certo que em nada ajuda ao verdadeiro conhecimento de Deus e ao amor que é sua necessária consequência, mas que, pelo contrário, pode prejudicá-los (...). Cada um, portanto, esteja onde estiver, pode honrar Deus com uma verdadeira religião e procurar a sua própria salvação, o que é função do simples particular. Se ainda hoje essa forma de pensar pode ser considerada vanguardista e revolucionária, imagine-se em meados do século XVII, quando a obra foi escrita! Foi muito interessante perceber que até mesmo Spinoza cai às vezes na sedução das utopias, ao conceber intricados mecanismos políticos que só poderiam funcionar a contento se todos os envolvidos estivessem empenhados no bem maior da coletividade, e não em seus próprios interesses mesquinhos. Tocante exemplo disso é a ênfase que o filósofo faz à quantidade de conselheiros (o equivalente aos nossos deputados, por exemplo), que deve ser numerosa o suficiente para impedir que sejam corrompidos por meio de suborno. Imagino o que o grande sábio diria se pudesse dar uma espiadinha no Brasil de hoje, em que um internauta tem a ideia genial (e desesperadora) de fazer um financiamento coletivo para comprar o Centrão e assim garantir o impeachment de um presidente genocida! O Brasil é a vergonhosa prova de que até Spinoza pode ser ingênuo... Os homens, com efeito, não nascem cidadãos, mas formam-se como tais. https://comunidaderesenhasliterarias.blogspot.com/2021/02/tratado-politico-baruch-de-espinosa.html

