Wired magazine editor and bestselling author Chris Anderson takes you to the front lines of a new industrial revolution as today’s entrepreneurs, using open source design and 3-D printing, bring manufacturing to the desktop. In an age of custom-fabricated, do-it-yourself product design and creation, the collective potential of a million garage tinkerers and enthusiasts is about to be unleashed, driving a resurgence of American manufacturing. A generation of “Makers” using the Web’s innovation model will help drive the next big wave in the global economy, as the new technologies of digital design and rapid prototyping gives everyone the power to invent -- creating “the long tail of things”
A Nova Revolução Industrial - MAKERS
Chris Anderson
Pode até ser uma nova revolução industrial, mas não quer dizer que isso seja bom.
Li este livro porque Ibrahim Cesar, amigo, colega, pessoa que muito respeito e admiro, não conseguia deixar de citá-lo por aí por voltas do início de Dezembro. Não concordei com algumas citações, o Ibrahim rebateu explicando a ideia central do livro, e eu me senti tentado a lê-lo. Li, fiz umas anotações, perdi as anotações por bobeira. A resenha não vai sair tão boa, mas enfim. A ideia de aplicar o open-source à vida real é muito boa --- a ideia central, da qual Ibrahim gostou, eu suponho. Mas na verdade é a compartimentalização dessa ideia, ou seja, a ideia aplicada de forma isolada à atual realidade social, que me deixa desapontado com o conteúdo do livro. A filosofia open-source transforma muita coisa. O fato de que ela viria a ser (segundo o cenário futurológico ali envisionado) usada para basicamente complementar, intensificar, dar continuidade a um sistema social injusto é triste. Você se anima com um futuro melhor provocado por uma revolução na forma como produzidos e consumimos coisas, mas então percebe que o autor não tem essa mesma visão: a nova revolução industrial dele é, na verdade, uma revolução industrial como todas as outras: capitalista. Se a proposta dele me parece falha porquanto incompleta e incompatível com uma visão de futuro justa (e apenas por isso), o background argumentativo do livro peca por uma série de coisas. Uma citação do livro, que o Ibrahim mesmo destacou, comentada: "When we moved from hunter-gatherers to farmers, one person could feed many" - Como se isso não fosse feito antes. Erro crasso de gente que nunca estudou antropologia e vomita senso comum com pinta de erudito. Chris Anderson me enojou nessa frase. Avante: "We were able to break out of the cycle of most other animals, where everyone’s job is to feed themselves or their offspring" - sociedades tradicionais nunca foram assim - "and pursue division of labor, where we each do what we do best" - o velho conto da carochinha do Adam Smith repetido à exaustão - "This created spare time and energy, which could be invested in such things as building towns, inventing money, learning to read and write, and so on" - como se a) nenhuma dessas coisas fosse possível antes, b) essas coisas fossem inerentemente e inexoravelmente positivas e c) como se todos tivessem sido agraciados com tal tempo livre bem-aproveitado para a incursão na alta-cultura. Santa ingenuidade. Mesma coisa: "The move from hand labor to machine labor freed up people to do something else. Fewer people in society were needed to create the bare essentials of food, clothing, and shelter, so more people could start working on the nonessentials that increasingly define our culture: ideas, invention, learning, politics, the arts, and creativity. Thus the modern age.” - Opa, tem uma inversão aí dos conceitos de "minoria" e "maioria". Esse livro não passou por uma revisão, não? E o que dizer da forma como ele justifica os enclosures? "Evitar a tragédia dos comuns". Me. Fucking. Poupe. O cara não justifica nada, na verdade, papagueia o palavreado do estereótipo de economista neoliberal saído do forno. Também me lembro da passagem em que ele fala sobre a melhoria das condições de vida durante a primeira revolução industrial --- melhoria para os ricos tida como melhoria para o todo da população, que só chegou muito tempo depois. "Mas chegou, não chegou?", argumenta-se, mas a inacuidade histórica é simplesmente absurda para um livro desse "tamanho". Ou será que não se trata de inacuidade, mas da boa e velha "trave no olho", que faz ele enxergar da classe média pra cima o grosso da humanidade e aplicar tudo a essa parte da população? Tinha muito mais coisas pra falar nas minhas anotações - inclusive um resuminho que tinha feito da minha opinião, tão bonitinho ele. Eu me lembro que era algo nas linhas do seguinte: a ideia é boa, mas sozinha não leva ao mundo maravilhoso que ele tanto insiste em anunciar como um messias. E eu não fui o único a notar isso. Na busca de críticas menos puxa-saco em relação ao livro para ver se me lembrava de mais pontos negativos para os quais torci o nariz, me deparo com um excelente review no Guardian: http://www.guardian.co.uk/books/2012/dec/07/makers-chris-anderson-review . Nele, Steven Poole comenta que "não há nuvens negras no céu futurista de Anderson". "At the same time as it [A visão futurista mostrada no livro] creates lots of new jobs, however, the Maker movement [...] will also be destroying lots of jobs: by replacing humans with robots in manufacturing, or by uploading product blueprints to be made in factories in other countries. Parts of the book, indeed, read like a 1990s manual on the virtues of outsourcing". Poder-se-ia argumentar que pessoas ficando sem (esse tipo de) trabalho é uma coisa boa, mas na verdade o capitalismo não funciona assim. Isso não vai (não é uma citação, mas uma paráfrase solta) "liberar as pessoas pra fazer coisas mais legais enquanto os robôs fazem as coisas chatas". As pessoas vão morrer de fome porque ninguém vai dar dinheiro para elas fazerem "coisas legais" o dia inteiro --- Ah, mas elas têm que produzir coisas em impressoras 3D e vender e coisa e tal... Como se o mercado realmente tivesse espaço para que cada indivíduo do planeta se preocupasse em criar coisas novas para serem vendidas. Não há dinheiro, na forma como ele é distribuído, que possa ser utilizado dessa forma, com pessoas todos os dias gastando para comprar todo tipo de caraceco ou máquina. Sim, porque o mercado precisaria ser mantido aquecido --- de uma maneira absurda que simplesmente que não se sustentaria por mais de meia-hora. O fato de que menos de 40% (nos EUA, seja dito, porque no Brasil...) das startups se dão bem é minimamente indicativo disso. Outra coisa importante: "It's also striking that the early Maker companies that Anderson celebrates are all making nothing but shiny gewgaws for the rich: "cool stickers for Macbooks", toy helicopters, noise-cancelling wireless headsets, computerised wristwatches, or a $75,000 dune-buggy kit." "There is indeed very little patience, in this book's Silicon Valley ideology of ambient über-wealth, for the ordinary and humdrum." - basicamente, na utopia de Anderson, todos são geeks designers com uma impressora 3D mas ninguém faz as coisas chatas. Vai haver muitos mais trabalhos nesse novo tipo de manufatura, ainda que os "empreendedores" estejam a convencer as pessoas a trabalhar de graça para eles. E quando os geeks querem comer pizza ou limpar a casa? "Ah, logo vai haver robôs pra isso também", Poole comenta, numa ironia que fez até um papercut nos meus dedos. Socialmente falando, é o velho sonho da classe média: tirar todo obstáculo para uma vida de glória e riqueza individualista. Logo na metade do livro já se percebe que Anderson não quer mudar o mundo: ele conta com a mudança para gerar mais oportunidades de grande riqueza para uma minoria, e conta com a manutenção de um sistema social que ele sabe que não vai trocar trabalhadores pobres e toda sorte de exploração (até, sim, a mais-valia) por robôs assim tão fácil. Um tipo de sociedade em que a produção está aberta a todos - eu disse TODOS, não os critérios de humanidade dependentes de condição social como os de Anderson - seria um tipo de sociedade bem diferente, não um capitalism on steroids.
Estatísticas
Avaliações
4.1 / 24- 5 estrelas42%
- 4 estrelas29%
- 3 estrelas25%
- 2 estrelas4%
- 1 estrelas0%
