Pinto Calçudo - ou Os ultimos dias de Serafim Ponte Grande

    Sergio Augusto de Andrade

    Globo
    2001
    205 páginas
    6h 50m
    ISBN-10: 852503472X
    Português Brasileiro

    "Serafim estranha, pela milésima vez, minha resistência a cocaína. Já disse, expliquei e repeti que sou alérgico a pó e que o de cocaína, especialmente, me provoca muito sono. Ele dança, rodopia e saracoteia pela sala enquanto eu, calmamente, reacendo meu charuto. Hoje não se conteve e disparou. 'Pinto! Você anda é sensível!' Joguei fora o anel do charuto; acertei a cesta de lixo, longe. 'Insensível!', Serafim repetiu. E, talvez temendo que eu ignorasse o sentido da palavra, completou logo em seguida: 'Insensível, anestesiado, resistente, intocado, distante, morto!' Eu assobiava mentalmente os últimos compassos de Forellenquintett, disfarçando os bocejos."

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    Luciano Luíz dos Santos11/10/2024Resenhou um livro
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    PINTO CALÇUDO ou OS ÚLTIMOS DIAS DE SERAFIM PONTE GRANDE de SÉRGIO AUGUSTO DE ANDRADE entra fácil num top 5 ou 10 de piores romances de todos os tempos. Vez ou outra topo com alguma narrativa de ficção medíocre, seja esta brasileira ou estrangeira, no entanto, para superar esse livro é preciso ser de uma qualidade que fica abaixo da sola do sapato. Compreenda que não estou falando mal do autor, mas sim da obra. É uma mescla de humor com alguma intelectualidade que deveria ser semelhante a uma divindade, coisa a qual aqui é infuncional. Tem alguns raros momentos em que a leitura anda um pouco sem tropeços, mas a imensidão da ora savana, floresta, deserto e por fim uma cidade decadente, ou em bom vernáculo, uma construção narrativa que beira a ruindade com profundidade é absurda. O enredo é simples. Pinto é uma (ou um se preferir) personagem que tem aquela mente que acredita ser superior aos demais. Sabe tudo, conhece tudo, se considera o pica. Seus diálogos e pensamentos são uma fotografia da pessoa chata ao extremo. Seu amigo que trabalha na repartição pública de saneamento, Serafim, é uma espécie de revolucionário. E decide instalar um canhão no topo de um edifício. Porém, Pinto diz não suportar o amigo em muitos aspectos e decide por matá-lo. Infelizmente o livro é ruim em tudo. As conversas, as piadas, pouca coisa ali consegue obter algum sucesso e é quase invisível. A personalidade de Pinto é insuportável, quer explicar tudo, dar lógica a tudo e assim a leitura não avança. As (ou os se quiser) demais personagens não ajudam mais que isso. Esse livro foi publicado em 1991 e depois outra editora se aventurou. Não sei se foi pago pelo autor ou se um editor que não estava bem da cabeça topou. O adquiri em 2006 e por várias vezes iniciei e reiniciei a leitura, mas não conseguia avançar da página dois... Agora em 2024 resolvi (tentar) ir até o fim, mas não é tarefa fácil. Raramente desisti de leituras. Em alguns casos, faltaram poucas páginas. Lembro vivamente que A BRUXA DE PORTOBELLO de PAULO COELHO não consegui finalizar, pois foi um dos romances mais sucateados do escritor. Desisti faltando 15 páginas. Daí teve outros livros de outros autores que não fui além da primeira página. Mas foram poucos casos. Não sei se o autor se aventurou por outras obras e espero que tenha evoluído, porque aqui a tentativa de construir uma narrativa onde narrador e personagem passassem a impressão de que são o auge do intelecto com algum humor chato não funfou. Obviamente ele queria desenvolver uma nova espécie de narrativa, coisa que a meu ver (confesso que tentei ali encontrar algo realmente positivo ao longo destes anos em diversas leituras iniciais), não tem qualida de alguma. O excesso de informações, ainda mais relacionadas a personalidades e até comportamentos não lhe incentiva a ler com vontade. O autor insiste em querer de algum jeito mostrar que tem um amplo conhecimento de coisas diversas, e isso ficou abarrotado de tal maneira que é como uma enciclopédia com deficiências. Outra coisa que achei um tanto estúpida, foi a inclusão de muitos trechos em outros idiomas. Nada contra francês, inglês, latim, funkês e variantes, mas podia ao menos ter a tradução no rodapé da página. Aparentemente o autor acreditava que os brasileiros têm a capacidade de ler em diversas línguas. O que não é o meu caso, infelizmente. No entanto, se em poruguês o livro é mequetrefe, imagine em línguas estrangeiras. Bom, ele tentou, quis ser inovador e sim, de certa forma isso é um acerto, só que lhe faltou a qualidade da narrativa, a escrita em si. A história até não é algo ruim, ela podia ser alicerçada com uma descrição melhor e diminuir a ideia de tentar parecer algo inteligente. Minha edição tem 208 páginas, mas empaquei na 170 e tá difícil (quase impossível) de continuar devido a baixa qualidade que vai caindo ainda mais e quando você acredita que chegou ao fundo do poço, descobre que há um alçapão e dá pra descer mais e encontar um elevador, escada, túnel em funil e bobogã e aquilo consegue lhe provar que a piora é uma constante. Li obras toscas ao longo da minha breve existência e sempre me perguntei se seria possível encontrar o fim de toda essa merda, mas não há fim. Sempre haverá um livro que vai superar a imbecilidade narrativa de outro (esse eu não sei). Se achar esse livro por aí, dá uma conferida. Pode ser que eu esteja completamente errado e seria interessante saber a opinião de outro ser humano. Acima mencionei que parei em determinada página e me esforcei por continuar, porém, desisti por ali mesmo e fui um herói por ter sobrevivido a tamanha porcaria... L. L. Santos

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