Lugares possíveis: metamorfoses da arte no tempo e no espaço -

    Organizador: Gerson Luís Trombetta Autores: Aline Bouvié Álvares, Bárbara Araldi Tortato, Bruna de Oliveira Bortolini, Daniel Confortin, Francisco Fianco, Gerson Luís Trombetta, Gustavo Frosi Benetti, Lorena Postal Waihrich, Luiza Santos, Marceli Andresa

    Méritos editora
    2012
    256 páginas
    8h 32m
    ISBN-13: 9788582000168
    Português Brasileiro

    Sempre que o ancião se curvava para aplacar a sede, a água recuava, sumia, desvelando o humo escuro a seus pés. (HOMERO. Odisséia. Canto 11, versos 585-587. Tradução de Donaldo Schüler). Na versão mais comum da mitologia grega, Tântalo, decidido a testar a sabedoria dos deuses, roubou seus manjares e, em troca, serviu-lhes a carne do próprio filho Pélope. Descoberto, foi lançado às profundezas do Tártaro, onde, mesmo num vale abundante em frutas e água, foi condenado a não poder jamais saciar a fome e a sede: "Vi também Tântalo de pé num lago, condenado à tortura cruel. Embora a água lhe tocasse o queixo, padecia de sede porque não lhe era permitido beber" (HOMERO. Odisséia. Canto 11, versos 582-584. Tradução de Donaldo Schüler). Toda tentativa de aproximar-se da água era frustrada, pois ela simplesmente escoava; ao erguer-se para colher os frutos das árvores, os ramos fugiam do seu alcance impulsionados pela força do vento. A expressão suplício de Tântalo, por conta dessa punição mitológica, refere-se à tensão vivida por aquele que deseja intensamente algo próximo, porém, inalcançável. O objeto desejado fica, ao mesmo tempo, ao alcance dos dedos e impossível de ser tocado. O martírio ao qual Tântalo está submetido é uma boa ilustração de um trabalho que pretenda esclarecer a natureza e o papel da arte no mundo contemporâneo. As expressões artísticas, com toda a sua diversidade, assim como a água e as frutas no Tártaro, insistem em escapar do alcance das abordagens conceituais. Compatibilizar a exuberância estética com as restrições próprias da rigidez conceitual é uma missão tão difícil quanto é, para Tântalo, saborear as frutas que lhe atiçam o desejo. No entanto, a analogia não é de todo verdadeira. Ao contrário de um suplício, a atividade de esclarecer filosoficamente as dinâmicas que a arte envolve pode ser enriquecedora e prazerosa. O que é próprio da arte – sua saturação estética, sua plurivocidade, suas recusas, sua linguagem e, principalmente, suas metamorfoses – e as engrenagens da teoria podem ser vistas não como inimigos irreconciliáveis, mas como lados da mesma moeda, como visadas distintas sobre interesses e preocupações comuns. É essa a motivação dos ensaios que agora chegam ao público. Originados e animadamente debatidos nas sessões de estudo do grupo de pesquisa Arte, Sentido e História, os textos aqui reunidos procuram, cada um à sua maneira, elucidar um aspecto das relações possíveis entre arte e filosofia. O projeto, muito consciente das limitações tantalógicas que o acompanham, alimenta-se do otimismo típico das produções coletivas. Os debates ocorridos nas sessões serviram como filtros necessários, retendo os exageros, os delírios e balizando garantias mínimas para que teoria e arte pudessem estabelecer diálogos saudáveis e mutuamente esclarecedores. O livro está organizado em duas partes. A primeira, O suplício de Tântalo, propõe hipóteses sobre dimensões conceituais, pedagógicas, sociais e econômicas da experiência com a arte. Por ser um mergulho na identidade da arte e no modo como a recebemos, as investigações ali reunidas compartilham a dramática situação de Tântalo, nos dois sentidos que apontamos acima: como tensão, por nunca atingirem o quadro completo, saciedade total, na investigação do objeto; e como riqueza, pois desnudam aspectos importantes da relação entre a arte e o mundo que a cerca. A segunda parte, As cabeças da Hidra, intenta lançar luz sobre a diversidade das expressões artísticas. Com capítulos que investigam desde a arte no corpo, passando pelo cinema, literatura, música, poesia, pintura e chegando à arquitetura, o projeto analisa as metamorfoses, no tempo e no espaço, dos fenômenos artísticos. Como as cabeças da Hidra (mas sem a sua índole mortal), a arte insiste em regenerar-se e transformar-se, acompanhando (e determinando) as novas demandas, os novos lugares e as novas configurações de sua época. Cada capítulo procura destacar como a arte é capaz de dialogar com a sua própria história e, ao mesmo tempo, auxilia o homem na árdua tarefa de compreender sua identidade. Como organizador, gostaria de manifestar agradecimentos a todos os participantes do grupo de pesquisa Arte, Sentido e História. O livro agora publicado é um registro vivo dos sete anos de atividades desse grupo, por onde já passaram professores, alunos de pós-graduação e de graduação, bolsistas de iniciação científica, "representantes da comunidade em geral" (parafraseando o sempre criativo Tarso Heckler), artistas plásticos, músicos e atores. Cada um, inspirado pela especificidade da sua formação e da sua experiência, tinha algo a dizer, algo a elucidar sobre os temas e problemas postos na arena. O trabalho no grupo e em grupo revigorou a certeza de que não estávamos apenas "teorizando um tema" mas também (e, talvez, principalmente), cultivando amizades e nos qualificando metodologicamente para o exercício da pesquisa acadêmica. Um agradecimento muito especial a Ester Basso, artista talentosíssima, que, além de participar das sessões, nos cedeu, por muitas vezes, seu ateliê para os encontros de estudo; por certo, estar num ateliê trouxe uma dose extra de inspiração. Por fim, registro que o livro é mais um integrante da Coleção Memória e Cultura, organizada pelo Núcleo de Estudos de Memória e Cultura (Nemec), ligado ao Programa de Pós-Graduação em História da Universidade de Passo Fundo. Sejam todos bem-vindos a mais este lugar onde o debate sobre as metamorfoses da arte é possível! Gerson Luís Trombetta Organizador Passo Fundo, primavera de 2012

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