“Agora que cessou de existir, parece adequado usar o guarda-roupa de um homem que igualmente deixou de existir – como se essa dupla negação fizesse o apagamento do seu passado mais total, mais permanente.”
Existe uma categoria de autores que conseguem nos transportar para lugares que nunca pisamos com nossos próprios pés. Zafón, por exemplo, tinha o dom de fazer Barcelona parecer um lugar familiar e conhecido. Paul Auster também é assim, é impossível ler o que ele escreve sem se sentir completamente imerso em Nova York. Ouso dizer que Auster consegue retratar Nova York nos livros mais claramente do que muitos filmes gravados na cidade.
Minha primeira experiência com o autor havia sido com o famoso Trilogia de Nova York, que contém três histórias distintas (à príncipio) e que se passam todas na cidade referência dos Estados Unidos. A experiência foi diferente e boa, então tinha altas expectativas sobre Noite do Oráculo, obra lançada em 2003 pelo autor.
É difícil descrever Noite do Oráculo sem fugir do senso comum: Um livro, dentro de um livro, dentro de outro livro. Aqui conhecemos Sidney Orr, um autor à beira da falência e recém-saído do hospital. Orr acaba entrando em uma loja recém-inaugurada de um chinês que acreditou no “american dream”. Ali, compra um caderno português de capa azul e utiliza o caderno para iniciar seu novo projeto. É nesse ponto que se inicia a história de Nick Bowen, um editor também de Nova York.
Nick tem contato com o livro, de uma autora obscura, chamado Noite do Oráculo. E em meio a essa descoberta, após um quase-acidente fatal, resolve abandonar toda sua vida pregressa e começar uma nova vida, do nada. Sim, é confuso, mas é incrivelmente compreensível graças à escrita de Paul Auster, que prende o leitor e cria a ansiedade para o próximo ato de todas as histórias.
Por sinal, talvez seja aí o grande defeito do livro. Ele se encerra sem resoluções, sem explicações, sem aprofundamentos. Três grandes histórias potenciais que infelizmente se encerram, como uma janela que se abre por apenas um momento e torna-se a fechar. Ainda assim, um livro e uma experiência diferente, reflexo do talento de Paul Auster.