O departamento responsável pela intrincada logística que aproxima determinado leitor de uma obra determinada no exato instante em que o primeiro estava necessitado da segunda nem sempre consegue levar a bom termo anos de planejamento, encontros e acasos. Às vezes, no entanto, ele acerta. Depois de quase um ano guardado na estante, resolvi abrir Porque até a morte terei fome, romance de estreia da Patrícia Colmenero, e, eita, olha isso aqui, não pára de ler não, senta lá, continua mais um pouco, tem muito mais onde afiar teus sentidos, prossegue, prossegue, não acaba ainda...
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O romance é a história de um rompimento, ou de um renascimento, ou ainda de uma morte. O colega aí talvez diga, Nada de novo no front, mas o texto de Patrícia responde com o desdém de quem consegue enxergar o tranquilo desespero da normalidade, de quem sabe transformar o excedente da solidão em linguagem, prosa e poesia. Como diz a certa altura do romance, “meu coração caberia no espaço interno da minha caneta e sua tampa”, e a gente entende, seja porque o departamento de logística do universo fez um bom trabalho, seja porque é isso que faz a escrita literária quando trabalha bem.
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Muito além de narrar a trajetória do fim de um relacionamento, Patrícia Colmenero reescreve o calvário do autoconhecimento, entre a “felicidade” burocrática dos obcecados por sucesso e a liberdade clariciana de uma verdade inventada recém-descoberta. O livro é, ainda, um mimo dos mais preciosos, com ilustrações e jogos de formatação que desafiam normas—o que vem muito a calhar, no que toca aos desejos de viver.
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Se encontrarem por aí, agarrem, pois vale muito o abraço.