À PROCURA DO TEMPO: uma apresentação de Assimetrias O professor, poeta e ensaísta Diego Braga colhe a poesia do mundo em questões e desdobramentos da vida dita e desdita em que ecoam o olhar que não se lança, o perfume que se esvai, o cheiro da ausência. Deste modo, Assimetrias perfaz uma única poesia com a proeza de dizer a distância do presente, a fugacidade do remanescente. O projeto que o poeta reinaugura a partir dos olhos que espelham “os mistérios entre a sola e o solo”, um projeto de poesia como unidade de sentido e não mero conjunto de coisas ditas, como diz belamente o verso “arte faz dos dentes um sorriso”. O livro manifesta, no encantamento do dito, o suspense do não dito, do que não se pode escrever ou pronunciar, do que as palavras não esgotam, do imperativo da vida desperdiçada no segundo vital de nossos dias, a virtude do intransponível, da intemperança, e a vigência plena do que é – não importa, não importa?... “Tudo ainda dorme: travesseiro do sempre”. Assimetrias da vida. O autor nos oferece o horizonte das manifestações poéticas em diferentes civilizações. Epigramas, epitalâmios, pequenas inscrições, haicais, formas mnemônicas, fragmentos de memórias que se perpetuam no tempo e no espaço e que se pronunciam através de seu trabalho: o impacto do transitório e do eterno; da percepção do sensório e do intelectivo; a musicalidade latente; a contemplação muda; a surdez do insustentável presente onde há vida e por simetria, a morte. ... e tudo permanecerá, até que se esgotem os olhos, os ouvidos, as palavras. As muitas vozes produzidas pela cidade ressoam. No desconcerto, uma banda de pífanos invade o silêncio do templo e as pedras vibram espelhadas nas águas. O poeta chora a errância da humanidade em anagramas, palavras desfeitas, refeitas, combinações entre o perfeito e o imperfeito. A plena certeza de tudo e a permanência do nada. Projetar a voz quando o mundo cala, contar a estória quando o dia apaga, ler o silêncio quando a paz a afaga, nascer como na ausência de causa... afinal, carros ainda conduzem e param a existência. Diego Braga está não apenas à procura do tempo, ele o descortina a cada segundo. Mãos atadas à vida – não há senha nem fila para vivê-la. Andréia Pedroso
