Noites Áridas -

    Ricardo Russano

    Patuá
    2012
    126 páginas
    4h 12m
    ISBN-13: 9788564308749
    Português Brasileiro

    Conheça 03 trechos dos contos do livro Noites Áridas, de Ricardo Russano: Rio das Almas Nuestras vidas son los ríos que van a dar en el mar (Jorge Manrique. Coplas a la muerte de su padre.) O primeiro contato com a água era um divisor natural. O frio trazia um desconforto que, se não era insuportável, fazia-se notar: não está mais em sua casa. Lucas e Marcos seguiam o ritual: primeiro mergulhavam para se acostumar com a temperatura da água, depois buscavam a boia que haviam deixado em terra firme. A boia era preta e com o formato de uma câmara de ar, dessas de carro, e tinha esse formato justamente porque era uma câmara de ar de trator. Nada de diferente, quase todos os meninos tinham uma dessas para descer o rio, e os que não tinham dividiam com algum amigo. Há algum tempo o avô de Lucas arrumara a boia para o neto, que logo chamou Marcos para descerem juntos as corredeiras do rio. Desde esse dia era a mesma coisa: pegavam a estrada do Calipá, seguiam até a ponte, de lá começavam a descer o rio. Iam contando – uma, duas, na terceira ponte aportavam de volta. [...] *** Sebastião Jaguaretê Logo que acordou, Sebastião já sabia. Passara a noite toda, custosa, ouvindo o rebuliço no pasto, os cavalos galopando em disparada, relinchando e coiceando o ar afobados. As vacas, as pobres, nem podiam correr daquele jeito; mugiam alto, formavam todas um grupo, iam amassando uma o traseiro da outra enquanto o touro circulava brioso frente a suas feições assustadas. Mas sempre alguma ficava; naquela noite ficou. Sebastião imaginava isso pelo mugido, quase um uivo de desespero, que ouvira quando a noite chegava ao fim. Barulhos da noite já iam rareando, ouviu a rês gritar em desespero: não era medo, era morte. Grito de morte é diferente. Todos os animais, se encaram o fim de olhos abertos, agem como o porco: gritam alto, alto, desespero está nos olhos e na voz, parecem mesmo querer assustar quem mata. Haja coragem pra se dar cabo da vida de um bicho assim, à cara, vendo o olhar que lança o moribundo, o desprezo que transborda, urra maldições, avisos – que todos um dia se encontram, se arranjam. [...] *** À espera do coronel — Demora! O tempo... demora. Vão passar por aqui mesmo? — Vêm dos lados lá da cidade, têm que passar por aqui. — E se já passaram? — Passar não passaram, impossível. E sossega, que com essa falação já pode ficar em pé de uma vez. — Não costumo ficar de tocaia. O sol espalhava-se pelo céu logo acima, nem sombra não havia, enquanto os dois peões – botina, couro, camisa e espingarda – procuravam se ajeitar esgueirando-se num tronco de árvore caído. Com todo cuidado e pouco barulho, parecia que do outro lado da árvore estava já o inimigo. Os dois se ajeitavam entre os cupinzeiros; o medo maior era do quero-quero aninhado logo ali. Protegendo os ovos sairia gritando o malvado, procurando nuca e fazendo algazarra. O sol, atacado com a moleza do calor de meio-dia, movia-se lentamente.

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