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    A História Cultural (Memória e sociedade) - Entre práticas e representações

    Roger Chartier, Roger Chartier

    Difel
    2002
    246 páginas
    8h 12m
    ISBN-10: 9722905848
    Português Brasileiro
    4.2
    89 avaliações
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    Na fidelidade crítica à história cultural dos Annales, muitas vezes designada como "história das mentalidades", a reflexão aqui apresentada pretende ilustrar um percurso intelectual definido por dois objectivos interligados: por um lado, examinar os legados interiorizados e os postulados não questionados da tradição historiográfica; por outro, criar um espaço de trabalho entre textos e leituras, no intuito de compreender as práticas que constroem o mundo como representação.

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    Andre Luiz Santana Souza07/01/2013Resenhou um livro
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    Textos, impressões e leituras - Roger Chartier

    Como um texto, que é mesmo para todos que o lêem, pode transformar-se em um instrumento de discórdia e de brigas entre seus leitores, criando divergências entre eles e levando cada um, dependendo de seu gosto pessoal, a ler uma opinião diferente? (Pp211). Para Rojas, autor a quem Chartier se refere durante todo o texto, a pergunta acima é possível devido primeiramente aos próprios leitores, cujas opiniões incompatíveis podem remontar sobretudo à multiplicidade de suas aptidões e expectativas, que são diferenciadas segundo a idade. Uns não sabem ler, enquanto outros não têm vontade ou já não podem. As aptidões e expectativas são também diferenciadas de acordo com os usos extremamente variados que os leitores fazem do mesmo texto. Na verdade o leitor é sempre visto pelo autor, ou pelo crítico, como necessariamente sujeito a um único significado, a uma interpretação correta e a uma leitura autorizada. Assim, vê-se a leitura como algo inscrito no texto, como um efeito automaticamente produzido pela própria estratégia da escrita específica da obra ou de seu gênero. Ler é uma prática criativa que inventa significados e conteúdos singulares, não redutíveis às intenções dos autores dos textos ou dos produtores de livros. Segundo Certeau: "um ato de caçar em propriedade alheia". Essa tensão fundamental atravessa a crítica literária, que se divide entre duas abordagens radicalmente opostas. De um lado estão as abordagens que inferem a leitura ou o leitor a partir das estruturas internas do próprio texto; de outro lado, existem abordagens - como a da fenomenologia do ato de ler, ou "estética da recepção" - que tentam localizar as determinações individuais ou comuns que regem os modos de interpretação extrínsecos ao texto. A história oferece duas abordagens que são necessariamente ligadas: a diversidade de leituras mais antigas a partir de seus vestígios múltiplos e esparsos , e identificar as estratégias através das quais autoridades e editores tentaram impor uma ortodoxia ou uma leitura autorizada do texto. Dentre essas estratégias, algumas são explícitas e se fundamentam no discurso (em prefácios, prólogos, comentários, e notas), e outras são implícitas, transformando o texto num mecanismo que deve, necesariamente, impor uma compreensão considerada legítima. Conduzido ou encurralado, o leitor encontra-se, invariavelmente inscrito no texto, mas este, por sua vez, inscreve-se de múltiplas formas em seus diferentes leitores. Para Rojas, as opiniões divergentes sobre um mesmo texto, devem ser associadas primeiro, às muitas diferenças em termos das aptidões, expectativas e predisposições de seus leitores. Mas as opiniões dependem do modo como os leitores "leem" (em voz alta ou não por exemplo) os textos. É grande portanto, a discrepância entre o relato falado e o texto impresso. Não podendo esquecer porém, que são inúmeras as ligações entre ambos. Em primeiro lugar, as fórmulas de cultura oral em geral estão inscritas em textos que se destinam a um grande público. Para Rojas porém, ainda existe outra razão que poderia confundir o entendimento do texto que ele oferecia a seus leitores: a infeliz intervenção dos próprios impressores. "Os próprios impressores estragaram o texto: colocaram cabeçalhos e resumos desnecessários no início dos atos, o que contraria o hábito observado pelos antigos escritores" (Rojas). Essa observação pode estabelecer uma distinção fundamental entre o texto e a impressão, entre o trabalho de escrever e o de fazer o livro. Os autores não escrevem livros, os livros não são absolutamente escritos. São manufaturados por copistas e outros artesãos, por técnicos e outros engenheiros, por máquinas. Em contraste com a representação do texto ideal e abstrato - que é estável por ser desvinculado de toda materialidade, uma representação elaborada pela própria literatura - é fundamental lembrar que nenhum texto existe fora do suporte que lhe confere legabilidadee; qualquer compreensão de um texto, não importa de que tipo, depende das formas com as quais ele chega até seu leitor. O restabelecimento de sua verdadeira complexidade de um texto exige um exame da relação muito estreita entre três pólos: o próprio texto, o objeto que comunica o texto e o ato que o apreende. As variações desa relação triangular produzem, com efeito, mudanças de significado que podem ser organizadas em alguns modelos. Primeiro temos o caso de um texto estável, apresentado em formas impressas que, por sua vez, também se modificam. O segundo modelo diz respeito à maneira pela qual as mudanças na forma impressa de um texto regem as transformações de seu significado. Um terceiro modelo dessa relação entre texto, livro e compreensão surge quando um texto de conteúdo estável e forma fixa torna-se objeto de leituras contraditórias. O modo de ler, que é ditado pelo próprio livro ou por seus intérpretes, oferece o arquétipo de todas as formas de leitura, não importa quais sejam. A caracterização desses modos de leitura é, portanto, indispensável a qualquer abordagem que pretenda reconstruir a maneira como os textos puderam ser apreendidos, compreendidos e manipulados. A observação nos leva a dois tipos de reflexões. Primeiramente, chama-nos atenção para o fato de que os indicadores explícitos pelos quais os textos são designados e classificados criam expectativas de leitura e perspectivas de entendimento. Este também é o caso da indicação do gênero, que liga o texto a ser lido a outros textos que já foram lidos e que assinala ao leitor o "pré-entendimento" apropriado no qual situar o texto. Rojas também nos leva a pensar que a história dos gêneros, tanto sexuais quanto tipográficos, podia oferecer os suportes para a história do discurso, do modo como foi formulada por Foucault. Compreender as séries de discurso em sua descontinuidade, despojar os princípios de sua regularidade e identificar o que neles há de especificamente racional são atos que, segundo o autor do texto pensa, pressupõem a necessidade de se levar em conta as coerções e exigências das próprias formas segundo as quais eles devem ser lidos. Assim, devemos estar atentos às leis de produção e aos mecanismos compulsórios que regem todas as classes ou séries de textos que se transformam em livros. Devemos ainda investigar as mudanças de um gênero para outro, quando uma determinada forma envolve-se em questões que normalmente lhe são alheias, ou em temas que, em geral são expressos em outros lugares e de lugares e de outras maneiras. Essas hipóteses de trabalho são sustentadas por várias reavaliações críticas que colocam em dúvida as certezas e os hábitos da história cultural francesa. A primeira diz respeito aos usos clássicos da noção de cultura popular. Essa noção não mais parece resistir a três dúvidas fundamentais. Em primeiro lugar, já não parece mais possível persistir na tentativa de estabelecer correspondências estritas entre dicotomias culturais e hierarquias sociais, criando relações simplistas entre determinados objetos ou formas culturais e grupos sociais específicos. Pelo contrário, é preciso reconhecer a circulação fluida e as práticas comuns que extrapolam as fronteiras sociais. Em segundo lugar, não parece possível identificar a diferença absoluta e a especificidade radical da cultura popular com base em seus próprios textos, crenças ou códigos. Os materiais que transmitem as práticas e os pensamentos das pessoas comuns são sempre formas e temas mistos e combinatórios, invenção e tradição, cultura erudita e folclore. Finalmente, a oposição macroscópica entre cultura “popular” e cultura de “elite” deixou de ser pertinente. Um inventário das múltiplas divisões que fragmentam o corpo social é preferível a essa separação compacta, que frequentemente define as pessoas comuns, à revelia, como o conjunto dos indivíduos que não pertencem à sociedade de elite. A ordenação dessas divisões observa vários princípios que tornam evidentes as divergências ou oposições entre homens e mulheres, população urbana e camponeses, católicos e protestantes, mas também entre gerações, profissões e populações vizinhas. Devemos igualmente questionar o contraste já há muito tempo aceito entre as formas completamente orais e gestuais das chamadas culturas tradicionais, por um lado, e a circulação dos textos escritos, primeiro em forma manuscrita e depois impressa, por outro – um contraste que delimita uma cultura isolada e minoritária. A divisão incentivou a fragmentação das abordagens desses dois modos de aquisição e transmissão cultural; estabeleceu uma rígida separação entre a antropologia histórica (que, mesmo trabalhando com textos, está apegada a sistemas de gestos, ao uso de palavras e aos mecanismos rituais) e uma história cultural mais clássica, dedicada ao estudo da produção e circulação da escrita. Assim formulada, a oposição entre oral e escrito não consegue explicar a situação que existia do século XVI e XVIII, quando meios de comunicação e práticas múltiplas ainda se sobrepunham. Algumas dessas sobreposições associam a palavra falada e o texto escrito: ou uma palavra falada se fixa na escrita ou, inversamente, um texto retorna em forma oral pela mediação da leitura em voz alta. Outras sobreposições ligam gestos e escritos. Inúmeros textos pretendem, abertamente, negar sua própria condição de discurso com a finalidade de produzir, no nível prático, comportamentos ou práticas consideradas legítimas ou úteis. Entre os muitos exemplos de gêneros que tentam incorporar gestos necessários ou apropriados encontram-se os compêndios sobre como, os livros de exercícios religiosos, os guias de boas maneiras e os manuais. A história das práticas culturais deve levar em conta essas interpenetrações e restabelecer algumas das complexas trajetórias que vão da palavra falada ao texto escrito, da escrita que é lida aos gestos que são executados, do livro impresso à leitura em voz alta. Sem abandonar as mediações e as séries, a história dos textos e dos livros deve ser, acima de tudo, uma reconstituição das variações nas práticas – em outras palavras, uma história da leitura. O ato de ler não pode anular-se no próprio texto, assim como as significações não podem também ser aniquiladas mediante significados impostos. A aceitação de mensagens e modelos sempre opera através de ajustes, combinações ou resistências. A impressão reduz o custo da fabricação do livro, uma vez que o custo é distribuído entre todos os exemplares de uma edição, em vez de incidir sobre um único exemplar. Além disso, a impressão diminui o tempo de produção, que era excessivamente longo no casa dos livros manuscritos. Em escala reduzida, devemos compreender os usos múltiplos, diferenciados e contraditórios da impressão, porque as autoridades concorrentes tinham fé nos poderes dela e os leitores manipulavam-na segundo suas aptidões e expectativas. A partir de uma perspectiva mais ampla, devemos reinscrever o surgimento da máquina impressora na história da longa duração das formas do livro ou dos suportes de textos e nas histórias das práticas de leitura. É aqui que a história cultural poderia encontrar uma nova posição no ponto em que se cruzam a crítica textual, a história do livro e a sociologia cultural.

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    Roger Chartier

    Historiador francês vinculado à atual historiografia da Escola dos Annales, trabalha sobre a história do livro, da edição e da leitura.

    20 Livros
    50 Seguidores

    Roger Chartier