Presente de uma grande amiga, este livro é uma lembrança de um período das nossas próprias histórias em que compartilhamos momentos em Montréal, convivendo boa parte do tempo em francês, e durante o qual organizamos juntas, com várias outras amigas, um clube de leitura que durou uns dois anos e que foi, como disse na primeira postagem da série, uma das inspirações pra este desafio de leitura. Gostei tanto da história que provavelmente vou relê-la em português e talvez até em espanhol, pra devorar cada detalhe que puder a cada nova leitura.
A obra é tão cheia de nuances que merece ser lida várias vezes. Pra começar, nas primeiras vezes que ouvi o título, nem associava cólera à doença, mas sim ao sentimento de cólera, raiva. Depois de ler o livro e comentários a respeito, percebi que não estava totalmente equivocada, de fato o autor pretendia fazer esse jogo de palavras e de sentidos e provocar a reflexão sobre amor e ódio, paixão e apatia. A própria doença cólera é metaforicamente comparada aos efeitos do amor sobre o corpo, nas inúmeras vezes em que Florentino, personagem central da trama, sofre fisicamente pelo amor platônico.
À primeira vista, parece uma história de amor tão profundo e puro que supera décadas de espera, mas desde o início da leitura e não me conformava com um mocinho tão fora do padrão e torto. Como não assisti o filme ainda e não tinha lido nada a respeito da história antes, no início fiquei até em dúvida se o galã seria Florentino ou Urbino. Só consegui genuinamente simpatizar com o personagem principal nos últimos capítulos, ainda assim, com reservas à sua conduta questionável ao longo da vida.
Garcia Marques, de forma genial, nos leva a refletir sobre morte e envelhecimento, começando a história com um caso de suicídio de um homem que não queria envelhecer e terminando com a superação das dificuldades que a velhice impõe ao amor mas também dos preconceitos sociais em relação ao amor na idade avançada. Por coincidência, enquanto lia o último capítulo do livro assistia a um episódio de Terra II, da TV Cultura, cujo tema era justamente o envelhecimento, os comportamentos aceitos tradicionalmente e os comportamentos possíveis em uma sociedade moderna e livre de tabus.
Estou hesitando em escrever muito mais sobre o livro porque acredito que qualquer resumo seria simplório e a mágica do livro é ir descobrindo essas nuances de significados à medida em que se lê. Li em algum lugar que no filme Playing it Cool o escritor Scott gosta tanto desta história que sai pela cidade largando cópias de O Amor nos Tempos do Cólera para outras pessoas lerem. Estou quase fazendo isso de tanto que desejo que leiam esse livro também!