Em 'Guerreiros do sol' o cangaço-meio-de-vida, o cangaço-vingança e o cangaço-refúgio são amplamente explorados, bem como tipos humanos em que se encarnou a violência desde os primeiros dias da colonização - o valentão, urbano ou rural, o cabra de bagaceira, o jagunço e o cangaceiro.
Guerreiros do Sol - Violência e Banditismo no Nordeste do Brasil
Frederico Pernambucano de Mello
Adquiri na última black Friday de 2017 com uma vontade gigantesca de ler. Gosto do tema cangaço e a obra apresentava-se diferenciada, com notas muito positivas de jornalistas e escritores nacionais e estrangeiros na contracapa, além de prefácio de Gilberto Freire. Pesquisando sobre o autor, vemos que tem outras obras no tema e esta é uma das primeiras, publicada em 1985. Um estudo das raízes do cangaço, entendendo o meio em que se estabeleceu e as características peculiares. Acredito que é uma das principais publicações na temática. O cangaço é analisado afastando-se de conceitos clichês que o romantizam como uma insurgência contra opressão (o fator desencadeante de mitos heroicos que se perpetuam até hoje) ou um fenômeno isolado de banditismo (como se o banditismo se resumisse neles, assim como a identidade cultural). A percepção é de uma sociedade predisposta a violência e espírito aguerrido como necessidade de sobrevivência. Isso foi trabalhado no primeiro capítulo, retrocedendo-se ao colonialismo e impactos influenciadores ao homem: o clima árido e agressivo ao colonizador com as secas; o embate com povos indígenas (infelizmente uma realidade) e o avançar da criação de gado (que levou o sertanejo a isolamentos, sem ação do poder público, onde a resiliência era condição vital). Nesse isolamento o autor cita também a agressão por parte de animais selvagens. Cenário multiforme em hostilidade e influenciador ao homem. Em seguida o homem é caracterizado em diferentes tipos. No parecer do autor o banditismo se estabelecia ou poderia se estabelecer com os valentes (personalidade intrínseca ao meio), os cabras, jagunços ou capangas (contratados por detentores de poder), os pistoleiros (assassinos de aluguel) e os cangaceiros (indivíduos diversos dos anteriores que por razões específicas começaram a formar bando e se estabelecer como verdadeiros coronéis sem terra, nas palavras do autor, vivendo à margem de disciplinas e patrões. Os fatores que direcionavam ao cangaço, em geral, foram: a escolha de vida nessa forma de banditismo e as buscas por vingança ou refúgio. Foi dada atenção também ao declínio do cangaço. A principal conclusão foi o estabelecimento de uma nova era, encabeçada pelo Estado Novo. O cangaço remonta a algo arcaico, que não conseguiria se estabelecer como antes em um contexto de valorização do progresso, onde cresciam as linhas de comunicação através do telégrafo, o fator isolamento reduzia-se, cortava-se o sertão com as rodovias, as tropas militares tinham armamentos contra os quais os cangaceiros não eram páreos, e também foram isolados em uma propaganda patriótica em que a ditadura de Vargas se fortalecia. O livro gira em torno dessas coisas, evidenciando exemplos e fazendo reflexões em fatores influenciadores e escolhas. O que no final fica explícito é que foi um tipo de banditismo, mas que não foi único e nem com identidade cultural exclusiva. É mencionado também ocorrências parecidas em outras nações (México, Espanha e Portugal). Uma parte muito curiosa do livro é o acervo fotográfico. Tem mais de 50 fotografias em papel diferenciado. Aquela questão de expressões culturais se evidencia como algo comum em grupos antagônicos. Vemos cangaceiros e volantes com disposições muito parecidas, inclusive no hábito de cortar a cabeça dos inimigos. Havia uma sinistra arte de retratá-las com organização. Quando não era apenas a cabeça mostrada, o corpo era todo arrumado para posar nas fotos o mais naturalmente possível.. Não gostei apenas da apresentação acadêmica. Livros assim, principalmente quando volumosos, tendem a ficar chatos. Mas essa apresentação foi algo que o autor fez questão de privilegiar, como obra entre as pioneiras nesse estudo antropológico. Achei também que o autor levantou, ainda que com pouca ênfase, uma questão que acabou não trabalhando, Em determinado momento fala que os bandos tradicionalmente e historicamente só tinham homens, sugerindo que pudesse haver homossexualidade (não acredito nisso) e isso mudou em Lampião (que aceitou mulheres no grupo). O ponto que ficou solto é que dá a entender em determinado momento que o famoso cangaceiro podia ser afeminado (pela moda que virou clichê, seu excesso de vaidade e que teria aparecido costurando em uma filmagem). Ficou vago, por que o autor citou mas não desenvolveu argumentação. Isto é, de forma mais abrangente ele até responde, diluída no texto e não específica. Foi o que essencialmente entendi. Bandidos por essa e aquela razão, que acabaram freados na história por aquela e mais outra razão.
Estatísticas
Avaliações
4.4 / 59- 5 estrelas56%
- 4 estrelas34%
- 3 estrelas10%
- 2 estrelas0%
- 1 estrelas0%




