Na medida que ia lendo a sua tese, comecei a pensar que a única atitude que eu poderia ter aqui seria a de não arguir, como quem faz um minuto de silêncio. Essa questão do anti-semitismo... Eu não sou judeu mas quando ouvi John Kennedy dizer, diante do Muro de Berlim, "Ich bin ein Berliner", imediatamente me ocorreu, como se fosse lógico, como se fosse uma consequência necessária e um reparo, dizer "Ich bin ein Jude". Eu nasci depois da Guerra, no Brasil. Não perdi ninguém no Holocausto. Mas o Holocausto sempre foi sofrido por mim como uma violência pessoal feita contra o meu próprio corpo, contra o corpo de pessoas que eu amava, mesmo que jamais conheci. Um dia, vi na televisão documentário feito por Hitchcock jovem, mas já mestre em suspense, entrando junto com as tropas aliadas em campo de concentração. Gravei este documentário. E o escondi, como quem esconde uma coisa vergonhosa, para que um dia, quando eu sentisse que isso não seria excessiva crueldade, eu pudesse sentar minha filha diante da televisão e fazê-la ver o que aconteceu ali; para que a geração dela, que só muito remotamente, por motivos históricos, tomará conhecimento do Holocausto, também veja e nunca se esqueça. Por isso é que eu achei que, talvez, participar dessa banca significasse para mim um profundo silêncio respeitoso, como quem se curva para o chão, se ainda é capaz de rezar, ou só observa o silêncio como uma maneira de respeitar os mortos. Quero lhe dizer, e você certamente está sentindo isso na minha voz, que eu li a sua tese como quem, muito humildemente, pede "desculpe". E depois de ler o seu trabalho, a vontade que eu tinha mesmo era de chorar silenciosamente. Doutor Marcio Tavares D'Amaral.
Anti-Semitismo. - Novas Facetas de uma Velha Questão
Diane Kuperman
PONTAL
1992
220 páginas
7h 20m
ISBN-1: 0
Português Brasileiro
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