Uma revista a frente do seu tempo?
As vezes dá vontade de dizer que a Dragon Magazine foi uma revista a frente do seu tempo, mas prefiro colocar que foi uma revista planejada para um hábito que os brasileiros não possuíam (e ainda não possuem): ser membro de clube. E não falo de clube esportivo, falo de clubes de interesses variados. Vou tentar explicar o porque. Em 1974 Gary Gygax e Dave Arneson lançam o "Dungeons & Dragons" (D&D). Para a confecção, lançamento e distribuição desse jogo é fundada a Tactical Studies Rules ou TSR, empresa que foi responsável pela publicação do jogo até o ano de 1997. Em 1975 a TSR começa a publicar a "The Strategic Review", um periódico dedicado a jogos de estratégia onde eram publicados os artigos sobre wargames e D&D, pois naquele momento o RPG era considerado uma vertente dos jogos de estratégia. Com a popularização do jogo, mais artigos sobre D&D foram sendo publicados até que a "The Strategic Review" foi cancelada e em seu lugar entraram dois novos periódicos: o "Little Wars", para jogos de estratégia, e "The Dragon", para o RPG. E após algumas edições a "Little Wars" é cancelada e seus artigos são incorporados a "The Dragon", que depois se torna a "Dragon Magazine". Na essência, mesmo depois das reformulações, a "Dragon Magazine" continuou sendo um periódico da TSR ao invés de uma revista sobre RPG. Essa é a diferença principal. Com o crescimento do RPG no Brasil na primeira metade da década de 1990, principalmente por causa do "Hero Quest" (lançado pela Estrela), "Dungeons & Dragons", "Dragon Quest" (ambos lançados pela Grow) e pela revista "Dragão Brasil" (Editora Trama), a Editora Abril resolve apostar alto em lança toda a coleção do "Advanced Dungeons & Dragons" (AD&D), começando com o "First Quest", o kit introdutório do AD&D, a trilogia base dos livros de AD&D, o cardgame "Spellfire" (ambientado nos mundos de AD&D) além de kits de suplementos ("Karameikos", "Forgotten Realms", "Ravenloft" e "Undermountain") e a versão nacional da "Dragon Magazine". Exceto pela revista e o "First Quest" os demais produtos eram relativamente pouco acessíveis. A revista, por ser o produto mais barato da linha, servia como porta de acesso ao universo do AD&D, com informações, novidades e suplementos, além de fidelizar o público com brindes, aventuras prontas e fichas exclusivas de personagens. Entretanto, em um país onde o RPG ainda estava engatinhando, a publicação da linha AD&D, juntamente com a "Dragon Magazine", se mostrou muito mais do que a boca consegue morder. Com isso a revista foi cancelada logo após pouco mais de um ano de publicação e os demais produtos não tiveram novas reimpressões. No que diz respeito somente a revista, infelizmente ela não conseguiu fazer frente a "Dragão Brasil": uma revista generalista, acessível e que fornecia, no que toca ao AD&D, o mesmo tipo de informações e suplementos que a Dragon, só que de forma não oficial. Fazendo uma analogia, a "Dragão Brasil" era a revista sobre carros e a "Dragon Magazine" era o periódico do auto clube que você não tem condição de fazer parte. No que diz respeito ao conteúdo de AD&D a Dragon era excelente. Aventuras, artigos, informações sobre novidades, suplementos, dicas, entre outras. Se você conseguisse poupar uns trocados para comprar o "First Quest", ela era o complemento ideal. Caso você fosse abastado o suficiente para comprar a trilogia do AD&D ela te explicaria com facilidade aqueles pontos que você não entendeu no "Livro do Mestre". Uma revista fora do seu tempo e do seu mercado. Se ela chegasse no Brasil dez anos depois encontraria outro mercado e quem sabe mais favorável a esse tipo de publicação,
